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O bagulho é suar – entrevista com Emicida

Fotos: Bruno  Vieira

De quebrada em quebrada, o rap nacional se fortalece

O domingo do dia 15 de maio de 2011 foi marcado, em Belo Horizonte, pela presença do palco do Conexão Vivo na Barragem Santa Lúcia, zona sul de Beagá, ao pé do Morro do Papagaio. Vários artistas se apresentaram, mas ficamos na cola de um, em especial.

Sete letras, um propósito. E.M.I.C.I.D.A. subiu ao palco chamando toda a favela para cantar em um só coro: “Eu só quero é ser feliz…”. O público responde em uma apoteose de autoidentificação: “Morar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Sim, o cara também é favela, como somos aqui, pensaria um morador que talvez estivesse ali. Mas grande parte do público – percebia-se a olhos vistos – era de pessoas de diversas camadas da sociedade e vários pontos da cidade. Na grade, no miolo, perto da mesa de som, o que se via era um misto de moradores de periferia e classe média. Emicida parece não ter problema com isso, já que todos pareciam estar navegando nas ondas de suas letras como se estivessem no mar, ao mesmo tempo, seguro e turbulento.

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No ano passado, o evento trouxe o Mano Brown e seus Racionais MCs para a Avenida Belém, no bairro Vera Cruz, zona leste. O show deveria ter acontecido dentro do morro, na parte alta da favela, mas foi vetado pela Polícia Militar, que alegou que só policiava o asfalto. Sem grades, muretas ou qualquer tipo de cerceamento físico para o público, foi um momento de encontro entre criador e criaturas. Era difícil encontrar alguém que não sabia cantar “Diário de um Detento” ou “Vida Loka”, por exemplo.

Na Barragem Santa Lúcia, não foi diferente. Salvo pelo fato de a praça, um espaço de circulação aberta nos dias comuns, estar totalmente ladeada de cercas, policiais, fiscais da Prefeitura e obrigatoriamente o público ter de vencer catracas para “acessá-la”. Havia, também, a proibição ao consumo de álcool no local do show, com o suposto intuito de preservar a segurança do público presente – o que gerou alegria para algumas pessoas e insatisfação para todas as demais. O nosso entrevistado, mesmo, soltou no seu Twitter: “Nota zero para a policia mineira que mais uma vez cerca e vê a população como bandidos em potencial. Cercas, detectores e revista ridículos…”

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Depois de dar um salve para as pessoas que foram à saída do backstage cumprimentá-lo e saudá-lo, Leandro Roque nos recebe no camarim. Percebe-se que, se rappers são conhecidos pela fama de “maus”, Emicida é o oposto. Sempre tranquilo e com sorriso no rosto, poderíamos ficar conversando ali “por uma pá de tempo” que o assunto não se esgotaria.

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Rimador nato, Emicida ganhou esse apelido por ser conhecido nas batalhas de MCs em São Paulo como “assassino” dos seus adversários. Acabado o momento de catarse no palco – marcada por hits ora pesados, ora românticos, ora freestyle –, é hora da conversa. “O improviso começou quando eu ainda era criança. Eu pegava aqueles discos do Raça Negra e ficava improvisando… Era de brincadeira, mas, quando vi, eu já estava fazendo isso para mais pessoas. Então, eu comecei a circular pelas batalhas da cena hip hop de São Paulo; quando percebi, estava fazendo show.”

Emicida nasceu na zona norte paulistana. Ele vem justamente de uma cidade onde o hip hop tem a maior efervescência – “São Paulo, hoje, é o principal lugar para se fazer rap no país. Lá tem mais opções, mas não quer dizer que os outros lugares não tenham.” E é com essa ressalva que ele percebe a necessidade de um intercâmbio constante entre diversas partes do país. Uma troca favorecida, de certo modo, pelo Circuito Fora do Eixo – um coletivo criado em Cuiabá-MT com o propósito de publicizar e agregar artistas independentes. Mas, se por um lado a intenção é divulgar quem está à margem, esse processo não pode ser dissociado de quem já está em um circuito: “A intenção não é dividir e ter dois lados, mas fazer a música circular”.

Apesar de adepto do download grátis de arquivos pela internet, Emicida reflete sobre a cadeia produtiva existente dizendo que em alguns momentos ela é paradoxal. Ele pondera da seguinte forma: ao mesmo tempo que esse método de obtenção de música é tido como ilegal, é também o principal meio para que as pessoas conheçam o trabalho de determinado artista e, com isso, acabem fomentando mais shows nos lugares onde ele se torna popular através da pirataria. “Os músicos em início de carreira são os que mais sofrem com o download grátis pela internet, pois esses caras não são resguardados pelo ECAD. Ao mesmo tempo, é o que aumenta a cadeia produtiva porque aumenta a quantidade de shows que fazemos.” Daí, o que era “fora da lei” torna-se legal – em ambos os sentidos.

Sobre música, Emicida se cobra. “Eu deveria saber de coisas atuais… Mas eu escuto os mesmos discos há dez anos!” (Ele não está sozinho nesse bonde) Vendo o futuro da música a partir do resgate dos ritmos africanos – vide o novo álbum da Beyoncé, que conta com a colaboração de umprodutor que bebe do Funk Carioca –, afirma categoricamente que todos os ritmos da música pop bebem da África. O que ele anda ouvindo agora?Fela Kuti e um box de música haitiana comprado em Los Angeles – proibido por 70 anos pelo governo americano. Ele tem andado também por uma vibe Salsa & Merengue, além de ouvir um cabra pernambucano chamado Júnio Barreto.

Sobre a cena no nosso Estado, ele é certeiro: “embora a gente receba pouca informação do que acontece em Minas, eu acredito muito no Duelo de MCs. Isso é maravilhoso para a cultura do improviso e pro hip hop em geral.” Concluindo, dá um recado para os que começam agora: “vocês não estão sozinhos, o bagulho é suar, porque nós vamos nos encontrar lá no pódio”.

Entrevista encerrada, pose para a foto, despedida e agradecimentos. Aquele que nos deu a entrevista não é nada mais do que gente da gente, o humilde que se tornou rei. Para quem já mordeu cachorro por comida, Emicida não nasceu para lagartixa.

 

Publicada, também, no Ah! Cidade

 

 

 

 

 

 

 

 

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