– Em sintonia com os limites da cidade –

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Não deixe o Duelo morrer…

Acho que grande parte da galera que curte uma música conhece um samba gravado pela Alcione, em 1975, chamado “não deixe o samba morrer”. Podemos aplicar a uma situação que vivemos em Belo Horizonte.

Chegou para nós um e-mail da turma da Família de Rua com um tom de preocupação: o tão famoso Duelo de MCs pode acabar.

Seguem os dizeres da carta:

 

Prezados amigos e parceiros,

 

Como é do conhecimento de vocês, há quatro anos o Coletivo Família de Rua realiza o Duelo de MC’s embaixo do Viaduto Santa Tereza, no Centro de BH.

Desde a primeira edição do Duelo, até hoje, diversas vezes a Família de Rua solicitou junto ao poder público de Belo Horizonte a parceria para melhorias e soluções estruturais de organização e segurança no espaço que considerem o contexto do Duelo de MCs. Mesmo depois de realizar várias reuniões e firmar diferentes acordos com as instituições responsáveis pela gestão da cidade, as demandas não foram atendidas.

No último dia 29 de junho a Família de Rua foi convocada para uma reunião junto à Regional Centro-Sul e a Polícia Militar de Minas Gerais. Nesta reunião foi solicitada a imediata suspensão do Duelo de MCs e ainda uma possível transferência do encontro para um local fechado ou outros espaços de Belo Horizonte. A alegação foi de que o espaço embaixo do viaduto Santa Tereza não comporta mais o público crescente.

No entanto, o Duelo de MCs acontece há quatro anos sob o Viaduto, no centro de Belo Horizonte, foram mais de 190 edições neste espaço que é legitimado e reconhecido pela cidade, por suas instituições, grupos culturais, imprensa e população.

Acreditando na manutenção do Duelo no espaço onde ele sempre foi realizado, a Família de Rua não concordou com sua suspensão, decidiu mantê-lo em funcionamento e propôs, novamente, uma articulação em torno da melhoria das condições para realização do encontro.

Diante disso, solicitamos a manifestação de seu apoio ao Duelo de MC’s, de forma a contribuir para atendimento das demandas apresentadas pela Família de Rua e consequente manutenção da realização periódica do Duelo. Para tanto, segue-se anexa [abaixo] uma carta de apoio ao Duelo de MCs, que irá compor um dossiê com as realizações do Duelo de MC’s.

* Favor preencher, imprimir e assinar a carta. A Família de Rua se responsabiliza por buscar o documento em mãos.

Desde já agradecemos o apoio e a atenção dispensada.

Atenciosamente,
Família de Rua

 

Quer ajudar? Clique aqui e pegue o modelo da carta. E não deixe que uma manifestação cultural espontânea termine assim.

 

Lançado em Belo Horizonte o movimento “Fora Lacerda”

Começa a ser articulado, via Facebook, um movimento que pede o impeachment do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), homem de confiança de Aécio Neves também apoiado por setores do PT. A primeira reunião ocorrerá neste sábado, 02 de julho, às 11h, na Praça da Estação. Márcio Lacerda, apesar de ter ampla maioria na Câmara de Vereadores, vem enfrentando crescentes críticas pela truculência da Guarda Municipal, medidas higienistas como o confisco das posses dos moradores de rua, a proibição de manifestações públicas, o despejo de moradores, o projeto de demolição de um dos marcos da cidade (o Mercado Distrital do Cruzeiro), a venda de ruas para a especulação imobiliária e, mais recentemente, a entrega da presidência do Comitê Executivo Municipal da Copa do Mundo a seu filho, Tiago Lacerda. A página do protesto no Facebook continua recebendo adesões.

O movimento pelo impeachment de Márcio Lacerda pretende, com essa primeira reunião, começar a acumular forças para um grande ato que realizaria em 31 de outubro. O protesto foi puxado por Tomás Amaral, morador do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, e um dos integrantes da Filmes de Quintal, associação sem fins lucrativos que promove a difusão da cultura audiovisual alternativa, e é autor de um relato sobre o assassinato de um morador por polícias militares em fevereiro. Mais de 4 mil pessoas já aderiram ao protesto no Facebook.

Já consolidado na internet está o movimento Salve a Rua Musas, que protesta contra a venda de 1.700 metros quadrados de espaço público que separam dois terrenos pertencentes à Tenco CBL-Serviços Imobiliários S.A. A venda possibilitaria a construção de um hotel de luxo na área e transformaria o restante da rua num beco fechado pelo prédio. A rua se localiza nas imediações de um maiores gargalos de tráfego da região metropolitana de Belo Horizonte, nas imediações do BH Shopping. Os moradores se mobilizaram e criaram um blog, que já sofreu um processo judicial da Tenco, que solicitava a remoção da página. A 5ª Vara Cível de Belo Horizonte só concedeu à construtora uma liminar que determinava a remoção de alusões a ela na página, medida já acatada pelos responsáveis pelo blog. O movimento “Salve a Rua Musas” também tem perfil no Twitter.

A relatora especial da ONU para a Moradia Adequada, Raquel Rolnik, incluiu a capital mineira entre as cidades que estão realizando despejos forçados que estariam violando os direitos humanos. Em resposta, o presidente do Comitê Executivo Municipal da Copa do Mundo e filho do prefeito, Tiago Lacerda, afirmou: “O que ela falou para a gente, não vamos nem considerar”.

O local dos protestos deste sábado, a Praça da Estação, já foi alvo de outras manifestações contra o prefeito, batizadas de “Praia da Estação”. Desde 2010, vestidos de roupas de banho e munidos de esteiras, cangas e outros apetrechos praianos, cerca de 200 estudantes ocuparam a Praça durante os finais de semana, em protesto contra o decreto municipal nº13.798 de dezembro de 2009, que proíbe a realização de eventos de qualquer natureza no local. O movimento é oficialmente ignorado pelo prefeito, mas nos bastidores preocupa Lacerda e seus aliados, que veem crescer na internet as páginas de protestos e críticas contra sua administração. Movimento semelhante para tirar do cargo a prefeita de Natal, Micarla de Souza (PV), começou timidamente nas redes sociais e rapidamente ganhou milhares de adeptos.

Profissionais da imprensa mineira tentaram noticiar a realização do ato Fora Lacerda deste sábado, mas foram silenciados pelo prefeito, no que já é uma característica conhecida das relações entre o Poder Executivo mineiro e a mídia, e que Márcio Lacerda agora transplanta também à prefeitura.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9360

Das várias cabeças de porco

Fotos: Lucas de Souza

Quem suporia que um símbolo de mau agouro, em cena, tivesse uma dimensão  humana?

Cabeça de Porco é um espetáculo experimental que traz no roteiro uma discussão sobre o progresso e suas consequências na sociedade atual.” Genérico e muito vago seria se fôssemos conceituar a peça apenas com esses dizeres. Sua concepção linguística e estética transcendem quaisquer explicações que se reduzam a palavras escritas e decifráveis.

No último fim de semana, o espaço do Grupo Trama de Teatro – localizado no bairro Fonte Grande, em Contagem, região metropolitana de Beagá – recebeu um espetáculo com esse nome. Fruto de um processo criativo dentro do coletivo “Grupos em Trama” – composto pelas cias.CóccixCrônica e Trama –, Cabeça de Porco reflete as dificuldades e mazelas que são frutos de processos deglutitórios e vorazes que vivenciamos no século 21.

O espetáculo se inicia com os atores convidando o público a tomar o seu “lugar” – um círculo de giz branco desenhado no chão preto. A primeira discussão vem à tona: qual é o lugar do público em um espetáculo teatral? Em cena, apenas um praticável – na verdade, uma pequena escada cujo desenho tortuoso perpetua-se até o céu, um pano preto esticado no teto. Uma analogia, talvez, à mesopotâmica Torre de Babel ou ao crescimento vertical desordenado e desorientado das grandes cidades.

Há também um baú e lixo. Muito lixo. Sacos plásticos são espalhados por todo o cenário, criando a porca atmosfera de um lugar supostamente sujo, moribundo e mal frequentado. Filhos paridos como se fossem excrementos. A estética alimenta a ideia e não o contrário: todos os elementos vão se transformando ao longo das cenas, o que torna o espetáculo sempre mais curioso. Em uma atmosfera densa e negra cujo “cenário sem cenário” lembra o pesado Dogville (do controverso Lars von Trier), trata-se de uma peça que trabalha com tabus, tentando torná-los totens. Religião, economia, sociedade: eis alguns temas tratados sob uma óptica herética, desregrada e, por que não?, irônica.

Ao longo da peça, o público se vê “contra a parede”. É necessário que ele se posicione e participe ativamente para que a cena tenha força, sentido. Apatia não pode ser o leitmotiv de quem se propõe a ver Cabeça de Porco. Até porque não dá para ficar inerte a tanta coisa imposta aos nossos olhos. Irritam-nos, e muito, algumas situações propostas – e é esse o cerne da questão: tirar-nos da zona de conforto de um espetáculo bem-feitinho e risível. Assistimos à peça, saímos um “bagaço humano”, encaramos aquilo que nos é colocado – seja em termos econômicos, sociais e mesmo morais. Com um quê de Absurdo, metáforas e elementos chocantes, o espetáculo reproduz a realidade de uma sociedade caótica, perdida, fundamentada na falsa ideia ascendente do consumo – uma verdadeira cabeça de porco.

Interessante observar a construção dos personagens que compõem a peça. Praticamente uma alegoria à reles condição humana, lembram um pouco algumas figuras caricatas da Idade Média (reproduzidas com humor pelo “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli). São emblemáticos, dúbios e representam elementos que fazem parte da nossa sociedade consumista – como, por exemplo, o Estado, o mercado, o progresso e a civilização. Todos os atores interpretam dois personagens que possuem uma matriz comum, mas que ao mesmo tempo se opõem – chega a lembrar um pouco do que nós mesmos somos: ambíguos, porém únicos.

Mais do que “apenas” um espetáculo

“Ainda é uma construção dramatúrgica.” Palavras de Rogério Coelho, poeta e dramaturgo da peça, essa é a expressão que melhor poderia defini-la. A discussão sobre o mote do trabalho partiu da confluência de assuntos e interesses das companhias que formam o “Grupos em Trama”. E conciliar esses mesmos assuntos e interesses foi uma das partes mais complexas do processo criativo. “É como se tentássemos pegar um grande bojo e o passássemos em um funil para que o estado da arte refletisse todas as discussões, toda a trajetória dos grupos.” Ao lado de Jessé Duarte, Rogério ajudou a montar o texto para a encenação subsidiado em Felipe Raslan – doutor em Sociologia pela Unicamp e coordenador de estudo sociológico da peça – e inspirado por Richard SennettAlfredo Bosi, Karl Marx e em vários outros teóricos.

Com a orientação de direção de Cida Falabella (Cia. ZAP 18), o processo de diegese da peça durou cerca de um ano. O espetáculo também tem a ver com os grupos de teatro que compõem o projeto Grupos em Trama, já que todos estão localizados em regiões periféricas e convivem com a realidade dessas regiões. “Havia uma impossibilidade de o Cabeça de Porco ser apenas um espetáculo. Mas nós já tínhamos uma preocupação de fazê-lo como uma intervenção, muito mais do que uma apresentação fechada.” O dramaturgo Rogério, ainda sobre o conceito principal da peça, anuncia: “não consegui definir o que é cabeça de porco nem nesta nem das outras vezes que pensei sobre isso. Mas, partindo da coisa do ‘o que não vai para frente’, é um estado dialético: é o que não vai para frente, mas é o que vai, também: na miséria, na pobreza…”.

A bem da verdade, Cabeça de Porco não fala somente da realidade dos grupos envolvidos e das quebradas onde eles se inserem, mas da nossa própria condição. Nós é que, muitas vezes, ignoramos esses males para que não padeçamos do mal da ansiedade de ver algo estar errado e nada podermos fazer. Ou não querermos. Ou não sabermos.

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O espetáculo volta a ser apresentado em dois locais: Venda Nova, nos dias 23, 24 e 25 de junho; e no bairro Industrial nos dias 27, 28 e 29 de junho, locais de atuação das companhias Cóccix e da Crônica, respectivamente. Os locais ainda serão confirmados.

Na gíria popular, costuma-se atribuir o termo “cabeça de porco” a um imóvel de péssima qualidade ou a uma situação/localidade que “não vai para frente”, situação sem saída, confusão. Esse termo surgiu no final do século 19 e era o nome do maior cortiço do Centro do Rio de Janeiro. Precursores das favelas, os cortiços eram a única opção de moradia dos mais pobres, especialmente de escravos recém-libertos, num Brasil que dava os primeiros passos rumo à industrialização. Eram locais insalubres e, acreditava-se, verdadeiros focos de doenças habitados por marginais e prostitutas, as chamadas “classes perigosas” da época. Expulsos dos cortiços, e sem ter para onde ir, os pobres subiram os morros da cidade para construir suas casas – nasciam, assim, as favelas brasileiras.

Amanda Gurgel, a mando da Educação

A educação no Brasil ainda tem que andar muito para chegar a algum patamar de qualidade. O mesmo vigor de uma administração que louva superávits também deveria injetar mais investimentos nos nossos mestres. Dados da Unesco contidos no Relatório de Monitoramento de Educação para Todos de 2010, a qualidade da educação no Brasil é baixa, principalmente no ensino básico. O relatório aponta que, apesar da melhora apresentada entre 1999 e 2007, o índice de repetência no ensino fundamental brasileiro (18,7%) é o mais elevado na América Latina e fica expressivamente acima da média mundial (2,9%).

O alto índice de abandono nos primeiros anos de educação também alimenta a fragilidade do sistema educacional do Brasil. Cerca de 13,8% dos brasileiros largam os estudos já no primeiro ano no ensino básico. Neste quesito, o País só fica à frente da Nicarágua (26,2%) na América Latina e, mais uma vez, bem acima da média mundial (2,2%). Na avaliação da Unesco, o Brasil poderia se encontrar em uma situação melhor se não fosse a baixa qualidade do seu ensino. Das quatro metas quantificáveis usadas pela organização, o País registra altos índices em três (atendimento universal, igualdade de gênero e analfabetismo), mas um indicador muito baixo no porcentual de crianças que ultrapassa o 5º ano.

Nesse contexto de caos e de mal estar na sala de aula (relatados até em dissertação de mestrado, como você pode ver aqui), surgem pessoas que desejam reverter esse quadro, lutando por melhorias aos alunos e aos professores.

Ela não tem mais do que 1,55m de altura. Tem o forte sotaque de uma nordestina arretada. E, assim como o sotaque, a sua luta por melhores condições na educação do seu estado, Rio Grande do Norte, tem marcado presença.

Amanda Gurgel é professora da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte e da rede municipal de Natal, capital do estado. Famosa recentemente por causa de um vídeo no qual ela aponta os reais problemas da educação, começou a rodar pelo país para incentivar mais pessoas a aderirem à luta, a não esmorecerem. O que ela diz no vídeo não é nada mais que mais-do-mesmo no que se refere à educação brasileira; mas o que marca não é o quê ela fala, mas como fala.

A professora esteve essa semana, mais exatamente em 31 de maio, para um evento da Assembleia Nacional dos Estudantes Livre – ANEL, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, no campus Pampulha. Antes de ela tomar seu lugar no Auditório Professor Bicalho, ela conversou sobre a sua campanha, sobre educação e planos futuros.

 

Qual foi seu sentimento diante de um plenário ao falar mal do sistema de educação, no seu caso, do Rio Grande do Norte?

Não senti nada de muito extraordinário porque essa atividade de denunciar os problemas da educação e falar em defesa dos trabalhadores e dos alunos sempre foi uma atividade minha desde que eu entrei na categoria. Desde que eu me tornei professora que eu realizo essas atividades – aquela era apenas mais uma, só que ganhou essa repercussão inesperada.

 

Você considera a repercussão positiva?

A repercussão foi positiva demais – obviamente por causa dessa conjuntura de total crise da educação, do momento em que chegamos realmente ao “fundo do poço”, como se costuma dizer. Não temos mais o que piorar na educação do Brasil. Aliado a esse momento, chega essa articulação nacional e isso é extremamente positivo.

 

Profª. Amanda Gurgel. Foto reproduzida do vídeo no qual ela ficou famosa. Clique para ver o vídeo.

 

Os problemas da educação nacional passam pela falta de valorização dos professores?

Assim como a desvalorização do professor, os problemas da educação nacional passam todos, necessariamente, pela falta de investimentos nessa pasta. Isso é fruto do descaso e dos compromissos que todos os governos têm não com os serviços essenciais prestados à população, mas com empresários, banqueiros, enfim, àqueles que financiam as suas campanhas. E é por causa da falta de recursos que nós temos todos esses problemas que estão caracterizados naquela fala e nos comentários e reações das pessoas em relação àqueles elementos que eu pontuei.

 

Você acredita que, por causa de toda essa discussão, o foco talvez esteja desviado para você em vez da discussão sobre educação?

Isso seria possível, sim. As pessoas têm dado um caráter um pouco personalista a isso. Mas isso não vai acontecer porque felizmente eu não estou nem um pouco vaidosa nem me considero a redentora nem da educação e nem do Brasil, nem me considero a salvadora de nada. Ao contrário: eu tenho dito, por onde eu passo, que não existe para os trabalhadores nenhum herói que não sejam os próprios trabalhadores organizados e engajados na luta. E a minha tarefa, nesse momento, é apenas essa: fazer com que as pessoas sintam-se animadas a se engajarem nesse movimento que é de nível nacional.

 

Você, naquele discurso, fala de professores que cumprem até três jornadas diferentes para complementar a renda. De que forma isso atrapalha a educação?

Isso não é um privilégio do Rio Grande do Norte, nem de uma minoria. Essa é a necessidade dos trabalhadores em educação do Brasil inteiro. Isso eu tenho constatado na prática, durante as viagens que estou fazendo – é assim que funciona em todos os estados, de norte a sul do Brasil. Como é que um professor que está em três horários em sala de aula, que muitas vezes recorre a outras atividades para complementar a sua renda… como é que ele pode estudar, se capacitar, elaborar as suas aulas de forma a atender a heterogeneidade de todas as turmas que ele leciona? Isso é impossível! Não se pode falar em qualidade na educação quando nós temos professores trabalhando nessa jornada de trabalho extenuante.

 

Aqui em Minas Gerais, o salário está abaixo do piso nacional. O Governo afirma que ele iguala esse piso com benefícios que não são, na verdade, o salário. Como você vê isso? Em todo estado é assim: salários abaixo do piso, professores subvalorizados…?

No RN nós também passamos por essa mesma realidade e em todos os lugares por onde eu tenho passado nenhum professor está recebendo esse piso. Na verdade, nem é o piso que contempla todas as necessidades, muito embora entendamos que esse é um primeiro passo, já que há regiões, como é o caso de Piauí, onde os professores recebem salário de R$ 500. De fato, é um primeiro passo que podemos dar. Não é a solução, mas é um passo rumo ao salário calculado pelo DIEESE, de R$ 2.200,00 para uma jornada de 20 horas semanais. A realidade é a mesma em todos os lugares.

 

Quais são os seus próximos passos no que se refere à luta em torno da educação?

Estamos realizando hoje [dia 31 de maio] um grande twitaço enviando as nossas mensagens com a hashtag “dez por cento do PIB já” para chegarmos mais uma vez ao topo dessa rede social para que as pessoas sintam o impacto da nossa mobilização, nesse momento, pela internet. Mas a nossa intenção é aliar esse movimento da internet ao movimento clássico das ruas. Estamos tentando elaborar um calendário de paralisação nacional e de atividades em nível nacional levantando essa bandeira do 10% do PIB.

O bagulho é suar – entrevista com Emicida

Fotos: Bruno  Vieira

De quebrada em quebrada, o rap nacional se fortalece

O domingo do dia 15 de maio de 2011 foi marcado, em Belo Horizonte, pela presença do palco do Conexão Vivo na Barragem Santa Lúcia, zona sul de Beagá, ao pé do Morro do Papagaio. Vários artistas se apresentaram, mas ficamos na cola de um, em especial.

Sete letras, um propósito. E.M.I.C.I.D.A. subiu ao palco chamando toda a favela para cantar em um só coro: “Eu só quero é ser feliz…”. O público responde em uma apoteose de autoidentificação: “Morar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Sim, o cara também é favela, como somos aqui, pensaria um morador que talvez estivesse ali. Mas grande parte do público – percebia-se a olhos vistos – era de pessoas de diversas camadas da sociedade e vários pontos da cidade. Na grade, no miolo, perto da mesa de som, o que se via era um misto de moradores de periferia e classe média. Emicida parece não ter problema com isso, já que todos pareciam estar navegando nas ondas de suas letras como se estivessem no mar, ao mesmo tempo, seguro e turbulento.

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No ano passado, o evento trouxe o Mano Brown e seus Racionais MCs para a Avenida Belém, no bairro Vera Cruz, zona leste. O show deveria ter acontecido dentro do morro, na parte alta da favela, mas foi vetado pela Polícia Militar, que alegou que só policiava o asfalto. Sem grades, muretas ou qualquer tipo de cerceamento físico para o público, foi um momento de encontro entre criador e criaturas. Era difícil encontrar alguém que não sabia cantar “Diário de um Detento” ou “Vida Loka”, por exemplo.

Na Barragem Santa Lúcia, não foi diferente. Salvo pelo fato de a praça, um espaço de circulação aberta nos dias comuns, estar totalmente ladeada de cercas, policiais, fiscais da Prefeitura e obrigatoriamente o público ter de vencer catracas para “acessá-la”. Havia, também, a proibição ao consumo de álcool no local do show, com o suposto intuito de preservar a segurança do público presente – o que gerou alegria para algumas pessoas e insatisfação para todas as demais. O nosso entrevistado, mesmo, soltou no seu Twitter: “Nota zero para a policia mineira que mais uma vez cerca e vê a população como bandidos em potencial. Cercas, detectores e revista ridículos…”

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Depois de dar um salve para as pessoas que foram à saída do backstage cumprimentá-lo e saudá-lo, Leandro Roque nos recebe no camarim. Percebe-se que, se rappers são conhecidos pela fama de “maus”, Emicida é o oposto. Sempre tranquilo e com sorriso no rosto, poderíamos ficar conversando ali “por uma pá de tempo” que o assunto não se esgotaria.

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Rimador nato, Emicida ganhou esse apelido por ser conhecido nas batalhas de MCs em São Paulo como “assassino” dos seus adversários. Acabado o momento de catarse no palco – marcada por hits ora pesados, ora românticos, ora freestyle –, é hora da conversa. “O improviso começou quando eu ainda era criança. Eu pegava aqueles discos do Raça Negra e ficava improvisando… Era de brincadeira, mas, quando vi, eu já estava fazendo isso para mais pessoas. Então, eu comecei a circular pelas batalhas da cena hip hop de São Paulo; quando percebi, estava fazendo show.”

Emicida nasceu na zona norte paulistana. Ele vem justamente de uma cidade onde o hip hop tem a maior efervescência – “São Paulo, hoje, é o principal lugar para se fazer rap no país. Lá tem mais opções, mas não quer dizer que os outros lugares não tenham.” E é com essa ressalva que ele percebe a necessidade de um intercâmbio constante entre diversas partes do país. Uma troca favorecida, de certo modo, pelo Circuito Fora do Eixo – um coletivo criado em Cuiabá-MT com o propósito de publicizar e agregar artistas independentes. Mas, se por um lado a intenção é divulgar quem está à margem, esse processo não pode ser dissociado de quem já está em um circuito: “A intenção não é dividir e ter dois lados, mas fazer a música circular”.

Apesar de adepto do download grátis de arquivos pela internet, Emicida reflete sobre a cadeia produtiva existente dizendo que em alguns momentos ela é paradoxal. Ele pondera da seguinte forma: ao mesmo tempo que esse método de obtenção de música é tido como ilegal, é também o principal meio para que as pessoas conheçam o trabalho de determinado artista e, com isso, acabem fomentando mais shows nos lugares onde ele se torna popular através da pirataria. “Os músicos em início de carreira são os que mais sofrem com o download grátis pela internet, pois esses caras não são resguardados pelo ECAD. Ao mesmo tempo, é o que aumenta a cadeia produtiva porque aumenta a quantidade de shows que fazemos.” Daí, o que era “fora da lei” torna-se legal – em ambos os sentidos.

Sobre música, Emicida se cobra. “Eu deveria saber de coisas atuais… Mas eu escuto os mesmos discos há dez anos!” (Ele não está sozinho nesse bonde) Vendo o futuro da música a partir do resgate dos ritmos africanos – vide o novo álbum da Beyoncé, que conta com a colaboração de umprodutor que bebe do Funk Carioca –, afirma categoricamente que todos os ritmos da música pop bebem da África. O que ele anda ouvindo agora?Fela Kuti e um box de música haitiana comprado em Los Angeles – proibido por 70 anos pelo governo americano. Ele tem andado também por uma vibe Salsa & Merengue, além de ouvir um cabra pernambucano chamado Júnio Barreto.

Sobre a cena no nosso Estado, ele é certeiro: “embora a gente receba pouca informação do que acontece em Minas, eu acredito muito no Duelo de MCs. Isso é maravilhoso para a cultura do improviso e pro hip hop em geral.” Concluindo, dá um recado para os que começam agora: “vocês não estão sozinhos, o bagulho é suar, porque nós vamos nos encontrar lá no pódio”.

Entrevista encerrada, pose para a foto, despedida e agradecimentos. Aquele que nos deu a entrevista não é nada mais do que gente da gente, o humilde que se tornou rei. Para quem já mordeu cachorro por comida, Emicida não nasceu para lagartixa.

 

Publicada, também, no Ah! Cidade

 

 

 

 

 

 

 

 

Que História é essa? 123 anos da Abolição da Escravatura no Brasil

Dona Isabel libertou os escravos há 123 anos, mas o negro ainda não tem pleno acesso a sua cultura

Pouco antes das 13 horas do dia 13 de maio de 1888, o Senado Imperial brasileiro aprovava a letra que declarava extinta a escravidão no Brasil: a Lei Áurea. Princesa Isabel, magnânima, daria então a canetada final necessária para que, formalmente, o Estado dissesse “Negro, vai que tu és livre agora!”. Processo que culminou no Treze de Maio, a abolição vem de um processo antigo – iniciado em 1850 com a proibição do tráfico negreiro. Como bem diz o poeta, “o processo é lento”. Mas o resultado é perene.

Cento e vinte e três anos da proclamação da suposta liberdade, ainda nos perguntamos em que estágio de liberdade se encontra o negro brasileiro. Vítima de vários estigmas, como o racismo e a diferenciação salarial, o processo de autoafirmação e superação desses traumas tem se dado por meio de várias ações – governamentais ou não.

A Lei ficou na História. E é por causa de sua importância histórica que convocamos o professor Marcos Cardoso, mestre em História pela UFMG e um dos cabeças do Movimento Negro em Beagá desde a década de 1970. Em entrevista concedida à equipe do Conexão Periférica, o professor assinala os avanços que foram alcançados pela população negra mais de um século depois da promulgação da lei e faz algumas ponderações sobre a data – uma delas, de que o dia de hoje é da libertação do trabalho escravo, e não do negro.

Mesmo com os problemas enfrentados pela população negra, nós podemos falar em um significado simbólico ou psicológico para a data da Abolição da Escravatura?

Marcos Cardoso: O Treze de Maio tem duas dimensões importantes. Para as comunidades negras tradicionais no Brasil e, em especial, Minas Gerais – sobretudo aquelas que devotam a sua fé em Nossa Senhora do Rosário, como o Congado –, a data é uma celebração da vida. Por isso que elas saem às ruas: para celebrar a libertação. Para o Movimento Negro – que retoma essa luta de combate ao racismo no Brasil a partir dos anos 1970 –, o dia tem outro significado, na medida em que ele se encontra mais preocupado com o dia posterior, o quatorze de maio. O Treze significa assim um dia nacional de combate ao racismo no Brasil. Mas não se contrapõe, nesse caso, ao dia da Consciência Negra (20 de novembro), data que o Movimento construiu no Brasil. São maneiras diferentes de interpretar e produzir sentido para uma data com um mesmo fato histórico.

Com tantos anos de militância no Movimento Negro, quais são as grandes transformações sociais que o sr. percebe ter acontecido para a população negra no Brasil?

São questões que eu acho importante do ponto de vista mais geral. Além dos avanços institucionais, como a criminalização do racismo, a sanção da lei 10.639 (que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afrobrasileira), há também o debate em torno da política de Ações Afirmativas no Brasil e a valorização estética, por exemplo. Mas vamos pensar de um ponto de vista real. Estamos falando de uma população que sofreu por 350 anos em um processo escravagista. Uma população perseguida no que se refere à sua cultura, aos seus valores. E quando o IBGE divulga um dado do Censo de 2010 dizendo que essa população aumentou, eu credito isso a uma consciência negra cada vez mais potencial.

Então, em hipótese nenhuma é possível falar que todos esses avanços em algum momento são retrocesso.

Não, eu acho que são avanços importantes. Não são avanços para a população negra brasileira, mas para a sociedade brasileira. À medida que nós avançamos, a sociedade brasileira avança. Aliás, quase todos os direitos que outros setores oprimidos da sociedade conseguem começam com a luta do Movimento Social, em especial com a luta do Movimento Negro. Eu acredito que a nação brasileira cresce, amadurece e se torna mais democrática na medida em que a população negra também avança.

Houve, no ano passado (2010), a questão da defesa do Estatuto da Igualdade Racial. Para alguns especialistas, o estatuto seria mais uma carta de intenções do que propriamente um documento efetivo. Eu gostaria que o sr. comentasse sobre o estatuto, ponderando o que ele tem de bom e no que ele tem que ser revisto.

“Como falar de um estado laico com um crucifixo pendurado dentro da sala de aula?”

É um documento importante, mas possui algumas lacunas que não ficaram muito evidentes na sua elaboração. Por exemplo, ele não fala especificamente em cotas raciais, mas em Ações Afirmativas de uma maneira mais genérica; ele não toca na questão dos territórios das comunidades quilombolas no Brasil – você sabe que o assunto da terra no país é uma questão maldita, está aí a população negra sem acesso à propriedade… São questões estratégicas para o desenvolvimento dessa população à margem do desenvolvimento da sociedade brasileira. Por outro lado, é um avanço na medida em que estabelece algumas responsabilidades ao Estado. Pode ser visto como uma âncora para exigirmos do Estado não só a proteção dos direitos individuais e coletivos, mas também a promoção de políticas públicas que possam reduzir efetivamente desigualdades raciais na sociedade brasileira.

Marcos Cardoso: “Discutir currículo é discutir política e poder”. / Foto: Arquivo pessoal

Como a lei 10.639 se estrutura e como tem sido a sua aplicação aqui em Belo Horizonte?

Existe no Brasil um ditado que há leis que pegam e leis que não pegam. Essa é uma lei que precisa de muita mobilização, sobretudo da comunidade escolar. Como nós, brasileiros, não conhecemos a história da África, por mais que tenhamos uma linha que nos une ao continente africano (e uma linha tênue do ponto de vista cultural e afetivo), nós não conhecemos de fato a verdadeira história desse continente. A lei é importante porque mexe na estrutura da educação brasileira e nas diretrizes curriculares nacionais da LDB (Lei de Diretrizes e Bases). Há um desafio político de fazer com que os gestores e secretários municipais e estaduais de educação implementem essa lei. E há também uma responsabilidade do ponto de vista do profissional da área de educação que é um imperativo ético, pois o professor é um funcionário do Estado e ele, enquanto funcionário público, deve cumprir a lei. Por fim, para essa lei ser efetivada, é necessária a participação da sociedade civil. O protagonismo dos professores, a vontade política do gestor, a participação aliada às ações dos órgãos responsáveis, tudo isso fará com que essa lei pegue e dê em médio prazo seus primeiros frutos. Essa é uma responsabilidade conjunta. Quando tratamos de cultura, por exemplo, como tratar o tema da cultura africana? Como levar a capoeira para dentro da sala de aula? Como falar de matrizes culturais importantes como o Candomblé dentro de uma escola extremamente católica ou de religiões extremamente intolerantes? Como falar de um estado laico com um crucifixo pendurado dentro da sala de aula? Como os valores de uma criança que pertença ao congado, umbanda ou candomblé serão respeitados? Só com o desdobramento disso na prática é que podemos perceber os conflitos.

Mas você considera que o Brasil está preparado para receber toda essa transformação?

O Brasil não está preparado para essas transformações, mas é possível prepará-lo, e por isso nós continuamos na militância. Há avanços. Existem estados em que a lei é cumprida de uma maneira muito significativa e existem estados em que os gestores ainda nem ouviram falar sobre essa lei. Tendemos a pensar que essa lei foi criada no governo Lula porque ela foi assinada e sancionada nesse governo, mas é uma luta antiga dos movimentos sociais no Brasil, desde a frente negra brasileira nos anos 1930. Se olharmos todos os processos de organização popular dos últimos 80 anos nos quais haja a participação hegemônica da população negra, percebemos que uma das grandes bandeiras sempre foi a educação. A educação pública – ainda que ruim – é a única que a população negra tem acesso. Estamos no momento de qualificar essa educação como produtora de sentido para a realidade desse povo do ponto de vista da história, e sendo assim, é necessário que esses conteúdos abordados pela lei 10.639 estejam presentes no currículo. E discutir currículo é discutir política e poder. No Brasil, quem tem privilégios não quer perdê-los. Não podemos mais falar em sensibilização de professores para esse tema e sim exigir que a lei seja cumprida. Educação é um processo de investimento demorado. Na academia nós conhecemos a história universal, mas que universalidade é essa que a África não está? Como estudaremos uma história geral em que a África não existe? Se estivermos falando da formação da sociedade brasileira, que formação é essa que a presença e participação efetiva dessa população na construção da nação brasileira são vistas de uma maneira secundária ou folclórica? A lei 10.639 é importante, ela transversaliza essa discussão em todo o processo de sistema de ensino no Brasil.

Publicado também no Ah! Cidade, nossos mais novos parceiros. =D

Cortina de Fumaça: Você Precisa Ouvir o Que Eles Tem a Dizer

Descobrimos ontem esse documentário, que é bem recente, diga-se de passagem. Um filme que todos os legisladores, todos os policiais, todos os juízes, todos os médicos, todos os jornalistas e toda a sociedade deveria assistir.

Um documentário ousado sobre um tema polêmico que interessa a todos e que precisa ser debatido de forma honesta: a política de drogas no Brasil e no mundo.

Cortina de Fumaça” está disponível na íntegra no Youtube. Clique abaixo, espere carregar e assista. E, claro, compartilhe.

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