– Em sintonia com os limites da cidade –

Teatro

Das várias cabeças de porco

Fotos: Lucas de Souza

Quem suporia que um símbolo de mau agouro, em cena, tivesse uma dimensão  humana?

Cabeça de Porco é um espetáculo experimental que traz no roteiro uma discussão sobre o progresso e suas consequências na sociedade atual.” Genérico e muito vago seria se fôssemos conceituar a peça apenas com esses dizeres. Sua concepção linguística e estética transcendem quaisquer explicações que se reduzam a palavras escritas e decifráveis.

No último fim de semana, o espaço do Grupo Trama de Teatro – localizado no bairro Fonte Grande, em Contagem, região metropolitana de Beagá – recebeu um espetáculo com esse nome. Fruto de um processo criativo dentro do coletivo “Grupos em Trama” – composto pelas cias.CóccixCrônica e Trama –, Cabeça de Porco reflete as dificuldades e mazelas que são frutos de processos deglutitórios e vorazes que vivenciamos no século 21.

O espetáculo se inicia com os atores convidando o público a tomar o seu “lugar” – um círculo de giz branco desenhado no chão preto. A primeira discussão vem à tona: qual é o lugar do público em um espetáculo teatral? Em cena, apenas um praticável – na verdade, uma pequena escada cujo desenho tortuoso perpetua-se até o céu, um pano preto esticado no teto. Uma analogia, talvez, à mesopotâmica Torre de Babel ou ao crescimento vertical desordenado e desorientado das grandes cidades.

Há também um baú e lixo. Muito lixo. Sacos plásticos são espalhados por todo o cenário, criando a porca atmosfera de um lugar supostamente sujo, moribundo e mal frequentado. Filhos paridos como se fossem excrementos. A estética alimenta a ideia e não o contrário: todos os elementos vão se transformando ao longo das cenas, o que torna o espetáculo sempre mais curioso. Em uma atmosfera densa e negra cujo “cenário sem cenário” lembra o pesado Dogville (do controverso Lars von Trier), trata-se de uma peça que trabalha com tabus, tentando torná-los totens. Religião, economia, sociedade: eis alguns temas tratados sob uma óptica herética, desregrada e, por que não?, irônica.

Ao longo da peça, o público se vê “contra a parede”. É necessário que ele se posicione e participe ativamente para que a cena tenha força, sentido. Apatia não pode ser o leitmotiv de quem se propõe a ver Cabeça de Porco. Até porque não dá para ficar inerte a tanta coisa imposta aos nossos olhos. Irritam-nos, e muito, algumas situações propostas – e é esse o cerne da questão: tirar-nos da zona de conforto de um espetáculo bem-feitinho e risível. Assistimos à peça, saímos um “bagaço humano”, encaramos aquilo que nos é colocado – seja em termos econômicos, sociais e mesmo morais. Com um quê de Absurdo, metáforas e elementos chocantes, o espetáculo reproduz a realidade de uma sociedade caótica, perdida, fundamentada na falsa ideia ascendente do consumo – uma verdadeira cabeça de porco.

Interessante observar a construção dos personagens que compõem a peça. Praticamente uma alegoria à reles condição humana, lembram um pouco algumas figuras caricatas da Idade Média (reproduzidas com humor pelo “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli). São emblemáticos, dúbios e representam elementos que fazem parte da nossa sociedade consumista – como, por exemplo, o Estado, o mercado, o progresso e a civilização. Todos os atores interpretam dois personagens que possuem uma matriz comum, mas que ao mesmo tempo se opõem – chega a lembrar um pouco do que nós mesmos somos: ambíguos, porém únicos.

Mais do que “apenas” um espetáculo

“Ainda é uma construção dramatúrgica.” Palavras de Rogério Coelho, poeta e dramaturgo da peça, essa é a expressão que melhor poderia defini-la. A discussão sobre o mote do trabalho partiu da confluência de assuntos e interesses das companhias que formam o “Grupos em Trama”. E conciliar esses mesmos assuntos e interesses foi uma das partes mais complexas do processo criativo. “É como se tentássemos pegar um grande bojo e o passássemos em um funil para que o estado da arte refletisse todas as discussões, toda a trajetória dos grupos.” Ao lado de Jessé Duarte, Rogério ajudou a montar o texto para a encenação subsidiado em Felipe Raslan – doutor em Sociologia pela Unicamp e coordenador de estudo sociológico da peça – e inspirado por Richard SennettAlfredo Bosi, Karl Marx e em vários outros teóricos.

Com a orientação de direção de Cida Falabella (Cia. ZAP 18), o processo de diegese da peça durou cerca de um ano. O espetáculo também tem a ver com os grupos de teatro que compõem o projeto Grupos em Trama, já que todos estão localizados em regiões periféricas e convivem com a realidade dessas regiões. “Havia uma impossibilidade de o Cabeça de Porco ser apenas um espetáculo. Mas nós já tínhamos uma preocupação de fazê-lo como uma intervenção, muito mais do que uma apresentação fechada.” O dramaturgo Rogério, ainda sobre o conceito principal da peça, anuncia: “não consegui definir o que é cabeça de porco nem nesta nem das outras vezes que pensei sobre isso. Mas, partindo da coisa do ‘o que não vai para frente’, é um estado dialético: é o que não vai para frente, mas é o que vai, também: na miséria, na pobreza…”.

A bem da verdade, Cabeça de Porco não fala somente da realidade dos grupos envolvidos e das quebradas onde eles se inserem, mas da nossa própria condição. Nós é que, muitas vezes, ignoramos esses males para que não padeçamos do mal da ansiedade de ver algo estar errado e nada podermos fazer. Ou não querermos. Ou não sabermos.

*

O espetáculo volta a ser apresentado em dois locais: Venda Nova, nos dias 23, 24 e 25 de junho; e no bairro Industrial nos dias 27, 28 e 29 de junho, locais de atuação das companhias Cóccix e da Crônica, respectivamente. Os locais ainda serão confirmados.

Na gíria popular, costuma-se atribuir o termo “cabeça de porco” a um imóvel de péssima qualidade ou a uma situação/localidade que “não vai para frente”, situação sem saída, confusão. Esse termo surgiu no final do século 19 e era o nome do maior cortiço do Centro do Rio de Janeiro. Precursores das favelas, os cortiços eram a única opção de moradia dos mais pobres, especialmente de escravos recém-libertos, num Brasil que dava os primeiros passos rumo à industrialização. Eram locais insalubres e, acreditava-se, verdadeiros focos de doenças habitados por marginais e prostitutas, as chamadas “classes perigosas” da época. Expulsos dos cortiços, e sem ter para onde ir, os pobres subiram os morros da cidade para construir suas casas – nasciam, assim, as favelas brasileiras.
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Festa de Encerramento do projeto Gera Ação Periférica 2010

Hip hop, grafite, dança de rua, audiovisual independente, teatro e poesia. Essas são algumas das manifestações da arte nas periferias que poderão ser conferidas no evento de encerramento do projeto Gera Ação Periférica no ano de 2010, a ser realizado no dia 18 de dezembro, sábado, às 14 horas, no Aglomerado da Serra.

O evento encerra os trabalhos no ano de 2010 da parceria do programa Conexão Periférica, da Rádio UFMG Educativa, e do Coletivo Gera Ação, composto por jovens do Aglomerado Serra. A festa também vem reunir pessoas envolvidas em movimentos com diferentes temáticas do universo das periferias. Haverá a participação dos grupos Codinome Favela, Parceria Firme e A Corte – da cena do hip hop de Belo Horizonte; intervenções cênicas com os grupos Coletivoz e Trama de Teatro; e uma roda de B-Boys e B-Girls do Aglomerado. Na oportunidade, será exibido um documentário produzido de forma coletiva que registra o processo de produção do programa Conexão Periférica pelos jovens do Coletivo Gera Ação.

Além de marcar o término das atividades no ano de 2010, a festa deste sábado vem também lançar a proposta de uma nova rede. A Rede de Comunicação Periférica pretende reunir grupos, coletivos e ONGs que atuam nas periferias de Belo Horizonte e Região Metropolitana na construção de um itinerário informativo.

Veja como chegar:

Programação

14h – Abertura
“O Pastelão” – Grupo Trama de Teatro

15h15 – Apresentação: Grupos “Codinome Favela” e “Parceria Firme”

16h – Apresentação: Banda Plugados Apoena (Jovens do Aglomerado Serra)

16h30 – Intervenção: Roda de B-Boys e B-Girls

17h20 – Apresentação: Sarau Coletivoz

18h20 – Apresentação: Grupo “A Corte”

Parceria Gera Ação Periférica

Encontro entre jovens do Gera Ação e Equipe do Conexão Periférica

Exibido pela primeira vez em 14 de outubro de 2009, o Conexão Periférica nasceu da preocupação de jovens jornalistas em discutir temas pouco explorados ou abordados de maneira estereotipada pela mídia tradicional. A ideia inicial era dar voz e visibilidade às pessoas que moram ou atuam nas periferias, além de grupos tradicionalmente marginalizados. Propondo uma abordagem diferenciada sobre temas da sociedade, o grupo que o coordena sentiu a necessidade de inserir os atores retratados no programa como protagonistas dessa produção. Foi a partir dessa demanda que o grupo firmou uma parceria com o Coletivo Gera Ação, do Aglomerado Serra, desde maio de 2010.

Composto por 15 jovens de 14 a 29 anos, o Gera Ação já desenvolvia, anteriormente, ações de comunicação e mobilização na comunidade – como o programa Microfonia, da Rádio Comunitária Pé da Serra. Hoje, o grupo realiza a produção do programa Conexão Periférica em todas as suas etapas – desde a proposição de pautas, passando pela apuração, culminando na montagem das matérias. Com o envolvimento de outros atores ao longo do processo, o projeto se expandiu e vem constituindo uma rede de solidariedade e comunicação que conecta diferentes periferias de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Para 2011, a meta é atingir outros grupos culturais, movimentos sociais e comunicadores comunitários.

Rede de Comunicação Periférica

Nem sempre existem espaços disponíveis para a manifestação artística, cultural e política dos jovens moradores das periferias. Por isso, o Conexão Periférica trabalha de forma colaborativa, na qual jornalistas formados, estudantes universitários e moradores de periferias comunicam-se, trabalhando em rede.

Na Rede de Comunicação Periférica, existe a proposta de um itinerário formativo que possibilite aos jovens nela envolvidos conhecer as técnicas de produção jornalística, mobilizar suas comunidades e exercer ativamente sua cidadania. Para tanto, em 2011 esse itinerário será constituído a partir de encontros semanais, com oficinas de rádio e comunicação, além de seminários e eventos culturais. O trabalho prevê que os jovens exponham suas demandas sobre a comunidade, levantem pautas, façam entrevistas e produzam matérias acerca do tema escolhido, sempre com o acompanhamento de um jornalista, que os orienta sobre a linguagem radiofônica. Durante o projeto outras ferramentas de comunicação serão exploradas, como as redes sociais.

SERVIÇO

Evento de Encerramento – Gera Ação Periférica 2010

Data: 18 de dezembro

Horário: 14h

Local: Espaço BH Cidadania Vila Fátima – Rua Dona Benta 184, Vila Fátima, bairro Serra (antigo CRAS Vila Fátima)

Como Chegar:

9204 Santa Efigênia – descer na Avenida do Cardoso, continuação da Mem de Sá

4107 Serra – Descer no ponto final. Seguir pela Avenida do Cardoso sentido Santa Efigênia

Informações:

9167-5181 (Bruno Vieira)

9659-2848 (Luana Costa)

8660-1291 (Simone Moura)


Agenda do Teatro do Beco

SETE LAGOAS

Manhã

Dia: 24/07/10 (Sábado)
Horário: 10 h “A laje”e 11 h “Conversos”
Local: Casa da Dona Bete – Cidade de Deus
R. José Teles, 73 (Antiga Rua 57)

Tarde
Horário: 16 h “A laje” e 17 h “Conversos”
Local: C. Cultural Casarão Nhô-Quim Drummond Praça Santo Antonio, 117 – Centro

ESMERALDAS

Dia: 25/07/10 (domingo)

Manhã

Horário:
10 horas “A laje”
11 horas “Conversos de um povo”
Local: Campo do Vasco
R. Pres. Artur Bernardes. S/N- Centro

Tarde

Horário: 16 horas “A laje”,
Local: Salão Paroquial – Praça Getulio Vargas

Horário: 17 horas “Conversos de um povo”
Local: Praça Getulio Vargas

RIBEIRÃO DAS NEVES

Dia: 31/07/10

Manhã

Horário: 16 horas “A laje”
17 horas “Conversos de um povo”

Local: Casa do Luis Sérgio – Rua Diamantina, Nº155-Bairro Sevilha

Informe-se: (031) 9267-6345 – Rita de Cássia
(031) 9421-6667 – Nil César


Noite do Griot com Marku Ribas e Palestra sobre Mandela

No próximo dia 27 de maio (quinta-feira), o projeto Noite do Griot, do Centro Cultural Casa África, recebe o multiartista Marku Ribas para uma conversa intimista recheada de música, revelações dos seus 48 anos de carreira, e 64 de vida.

A apresentação será às 21 horas, no Teatro Alterosa, com entrada franca e distribuição antecipada de ingressos limitados.

Além da apresentação de Marku, haverá ainda a palestra Mandela: um herói Invictus que transcendeu o tempo, proferida por Carla Lopes Champagna, moçambicana, assessora e representante oficial no Brasil da Fundação de Desenvolvimento da Comunidade (FDC), entidade internacional com atuação na África do Sul, Moçambique e Brasil, criada pela senhora Graça Machel, esposa de Mandela. A palestra iniciará às 19h30, e terá mesa composta pelo embaixador do Senegal no Brasil, Sr. Fodé Seck, a presidente da Fundação Municipal de Cultura, Thaís Pimentel, Rodrigo Perpétuo, secretário Adjunto de Relações Internacionais da Prefeitura de Belo Horizonte, com mediação de Marcos Cardoso, historiador e pesquisador da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra.

ANOTE:

Noite do Griot com Marku Ribas
Quinta-feira, 27/05, 21h
Teatro Alterosa – Av. Assis Chateaubriand, 499 Floresta
Entrada Franca – ingressos 1h30 antes do evento


Noite do Griot com Elisa Lucinda

Trazer à margem das sensações humanas, o sentimento guardado como tesouro nas profundezas da palavra, seja ela escrita, dita, vivida… Assim como os grandes mestres da tradição oral africana, a artista capixaba Elisa Lucinda iluminará com seus versos a próxima edição do projeto Noite do Griot, do Centro Cultural Casa África, no dia 27 de abril (terça-feira), a partir das 21 horas, no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte.

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