– Em sintonia com os limites da cidade –

Cidades

A Juventude oKupa a Cidade: QUAL É O SEU GRITO?

Venha gritar pelo fim de todas as formas de violência contra das juventudes!

Venha debater com:
  • Cristiane Barreto – Agenda Juventude e Pixação
  • Fernanda Godinho – Grupo Vhiver e Conexão Periférica
  • Giovanna Isabel Costa – Pastoral da Juventude
  • Gustavo Bones – Movimento FORA LACERDA

QUANDO: 13 de abril, sexta-feira, às 19h
ONDE: Centro Cultural UFMG – Av. Santos Dumont, 174, Centro – Belo Horizonte
(Próximo à Praça da Estação / Metrô Central)

ENTRADA FRANCA.
Em seguida, cortejo até o DUELO DE MCs, no Viaduto Santa Tereza, onde será realizado um DUELO TEMÁTICO sobre as discussões do oKupa.

Realização:
Observatório da Juventude UFMG
Fórum das Juventudes da Grande BH

Apoio:
Centro Cultural UFMG

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Coletivoz de volta à ativa em 2012: Poesia na Praça Sete

Janeiro passou correndo. Estamos em fevereiro e já temos um chamado:

Neste sábado, dia 4, a partir das 11h, o Coletivoz convida a todos os poetas para recitarem no Centro de Belo Horizonte.

Nesse dia e hora, acontecerá o projeto “Poesia na Praça Sete”, que está no ar sob a articulação de Rogério Salgado. Como ele mesmo diz “a poesia precisa ser mais que livros”. E é a oralidade do lugar comum que mantém os espaços poéticos da cidade.

Poesia na Praça Sete. Foto de Carlos Ramalho.

À luta, à voz!

Lembrando:
Poesia na Praça – Coletivoz
Sábado, 4 de fevereiro, 11h
Praça Sete, Centro de Beagá


Não deixe o Duelo morrer…

Acho que grande parte da galera que curte uma música conhece um samba gravado pela Alcione, em 1975, chamado “não deixe o samba morrer”. Podemos aplicar a uma situação que vivemos em Belo Horizonte.

Chegou para nós um e-mail da turma da Família de Rua com um tom de preocupação: o tão famoso Duelo de MCs pode acabar.

Seguem os dizeres da carta:

 

Prezados amigos e parceiros,

 

Como é do conhecimento de vocês, há quatro anos o Coletivo Família de Rua realiza o Duelo de MC’s embaixo do Viaduto Santa Tereza, no Centro de BH.

Desde a primeira edição do Duelo, até hoje, diversas vezes a Família de Rua solicitou junto ao poder público de Belo Horizonte a parceria para melhorias e soluções estruturais de organização e segurança no espaço que considerem o contexto do Duelo de MCs. Mesmo depois de realizar várias reuniões e firmar diferentes acordos com as instituições responsáveis pela gestão da cidade, as demandas não foram atendidas.

No último dia 29 de junho a Família de Rua foi convocada para uma reunião junto à Regional Centro-Sul e a Polícia Militar de Minas Gerais. Nesta reunião foi solicitada a imediata suspensão do Duelo de MCs e ainda uma possível transferência do encontro para um local fechado ou outros espaços de Belo Horizonte. A alegação foi de que o espaço embaixo do viaduto Santa Tereza não comporta mais o público crescente.

No entanto, o Duelo de MCs acontece há quatro anos sob o Viaduto, no centro de Belo Horizonte, foram mais de 190 edições neste espaço que é legitimado e reconhecido pela cidade, por suas instituições, grupos culturais, imprensa e população.

Acreditando na manutenção do Duelo no espaço onde ele sempre foi realizado, a Família de Rua não concordou com sua suspensão, decidiu mantê-lo em funcionamento e propôs, novamente, uma articulação em torno da melhoria das condições para realização do encontro.

Diante disso, solicitamos a manifestação de seu apoio ao Duelo de MC’s, de forma a contribuir para atendimento das demandas apresentadas pela Família de Rua e consequente manutenção da realização periódica do Duelo. Para tanto, segue-se anexa [abaixo] uma carta de apoio ao Duelo de MCs, que irá compor um dossiê com as realizações do Duelo de MC’s.

* Favor preencher, imprimir e assinar a carta. A Família de Rua se responsabiliza por buscar o documento em mãos.

Desde já agradecemos o apoio e a atenção dispensada.

Atenciosamente,
Família de Rua

 

Quer ajudar? Clique aqui e pegue o modelo da carta. E não deixe que uma manifestação cultural espontânea termine assim.

 


Lançado em Belo Horizonte o movimento “Fora Lacerda”

Começa a ser articulado, via Facebook, um movimento que pede o impeachment do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), homem de confiança de Aécio Neves também apoiado por setores do PT. A primeira reunião ocorrerá neste sábado, 02 de julho, às 11h, na Praça da Estação. Márcio Lacerda, apesar de ter ampla maioria na Câmara de Vereadores, vem enfrentando crescentes críticas pela truculência da Guarda Municipal, medidas higienistas como o confisco das posses dos moradores de rua, a proibição de manifestações públicas, o despejo de moradores, o projeto de demolição de um dos marcos da cidade (o Mercado Distrital do Cruzeiro), a venda de ruas para a especulação imobiliária e, mais recentemente, a entrega da presidência do Comitê Executivo Municipal da Copa do Mundo a seu filho, Tiago Lacerda. A página do protesto no Facebook continua recebendo adesões.

O movimento pelo impeachment de Márcio Lacerda pretende, com essa primeira reunião, começar a acumular forças para um grande ato que realizaria em 31 de outubro. O protesto foi puxado por Tomás Amaral, morador do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, e um dos integrantes da Filmes de Quintal, associação sem fins lucrativos que promove a difusão da cultura audiovisual alternativa, e é autor de um relato sobre o assassinato de um morador por polícias militares em fevereiro. Mais de 4 mil pessoas já aderiram ao protesto no Facebook.

Já consolidado na internet está o movimento Salve a Rua Musas, que protesta contra a venda de 1.700 metros quadrados de espaço público que separam dois terrenos pertencentes à Tenco CBL-Serviços Imobiliários S.A. A venda possibilitaria a construção de um hotel de luxo na área e transformaria o restante da rua num beco fechado pelo prédio. A rua se localiza nas imediações de um maiores gargalos de tráfego da região metropolitana de Belo Horizonte, nas imediações do BH Shopping. Os moradores se mobilizaram e criaram um blog, que já sofreu um processo judicial da Tenco, que solicitava a remoção da página. A 5ª Vara Cível de Belo Horizonte só concedeu à construtora uma liminar que determinava a remoção de alusões a ela na página, medida já acatada pelos responsáveis pelo blog. O movimento “Salve a Rua Musas” também tem perfil no Twitter.

A relatora especial da ONU para a Moradia Adequada, Raquel Rolnik, incluiu a capital mineira entre as cidades que estão realizando despejos forçados que estariam violando os direitos humanos. Em resposta, o presidente do Comitê Executivo Municipal da Copa do Mundo e filho do prefeito, Tiago Lacerda, afirmou: “O que ela falou para a gente, não vamos nem considerar”.

O local dos protestos deste sábado, a Praça da Estação, já foi alvo de outras manifestações contra o prefeito, batizadas de “Praia da Estação”. Desde 2010, vestidos de roupas de banho e munidos de esteiras, cangas e outros apetrechos praianos, cerca de 200 estudantes ocuparam a Praça durante os finais de semana, em protesto contra o decreto municipal nº13.798 de dezembro de 2009, que proíbe a realização de eventos de qualquer natureza no local. O movimento é oficialmente ignorado pelo prefeito, mas nos bastidores preocupa Lacerda e seus aliados, que veem crescer na internet as páginas de protestos e críticas contra sua administração. Movimento semelhante para tirar do cargo a prefeita de Natal, Micarla de Souza (PV), começou timidamente nas redes sociais e rapidamente ganhou milhares de adeptos.

Profissionais da imprensa mineira tentaram noticiar a realização do ato Fora Lacerda deste sábado, mas foram silenciados pelo prefeito, no que já é uma característica conhecida das relações entre o Poder Executivo mineiro e a mídia, e que Márcio Lacerda agora transplanta também à prefeitura.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9360


Das várias cabeças de porco

Fotos: Lucas de Souza

Quem suporia que um símbolo de mau agouro, em cena, tivesse uma dimensão  humana?

Cabeça de Porco é um espetáculo experimental que traz no roteiro uma discussão sobre o progresso e suas consequências na sociedade atual.” Genérico e muito vago seria se fôssemos conceituar a peça apenas com esses dizeres. Sua concepção linguística e estética transcendem quaisquer explicações que se reduzam a palavras escritas e decifráveis.

No último fim de semana, o espaço do Grupo Trama de Teatro – localizado no bairro Fonte Grande, em Contagem, região metropolitana de Beagá – recebeu um espetáculo com esse nome. Fruto de um processo criativo dentro do coletivo “Grupos em Trama” – composto pelas cias.CóccixCrônica e Trama –, Cabeça de Porco reflete as dificuldades e mazelas que são frutos de processos deglutitórios e vorazes que vivenciamos no século 21.

O espetáculo se inicia com os atores convidando o público a tomar o seu “lugar” – um círculo de giz branco desenhado no chão preto. A primeira discussão vem à tona: qual é o lugar do público em um espetáculo teatral? Em cena, apenas um praticável – na verdade, uma pequena escada cujo desenho tortuoso perpetua-se até o céu, um pano preto esticado no teto. Uma analogia, talvez, à mesopotâmica Torre de Babel ou ao crescimento vertical desordenado e desorientado das grandes cidades.

Há também um baú e lixo. Muito lixo. Sacos plásticos são espalhados por todo o cenário, criando a porca atmosfera de um lugar supostamente sujo, moribundo e mal frequentado. Filhos paridos como se fossem excrementos. A estética alimenta a ideia e não o contrário: todos os elementos vão se transformando ao longo das cenas, o que torna o espetáculo sempre mais curioso. Em uma atmosfera densa e negra cujo “cenário sem cenário” lembra o pesado Dogville (do controverso Lars von Trier), trata-se de uma peça que trabalha com tabus, tentando torná-los totens. Religião, economia, sociedade: eis alguns temas tratados sob uma óptica herética, desregrada e, por que não?, irônica.

Ao longo da peça, o público se vê “contra a parede”. É necessário que ele se posicione e participe ativamente para que a cena tenha força, sentido. Apatia não pode ser o leitmotiv de quem se propõe a ver Cabeça de Porco. Até porque não dá para ficar inerte a tanta coisa imposta aos nossos olhos. Irritam-nos, e muito, algumas situações propostas – e é esse o cerne da questão: tirar-nos da zona de conforto de um espetáculo bem-feitinho e risível. Assistimos à peça, saímos um “bagaço humano”, encaramos aquilo que nos é colocado – seja em termos econômicos, sociais e mesmo morais. Com um quê de Absurdo, metáforas e elementos chocantes, o espetáculo reproduz a realidade de uma sociedade caótica, perdida, fundamentada na falsa ideia ascendente do consumo – uma verdadeira cabeça de porco.

Interessante observar a construção dos personagens que compõem a peça. Praticamente uma alegoria à reles condição humana, lembram um pouco algumas figuras caricatas da Idade Média (reproduzidas com humor pelo “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli). São emblemáticos, dúbios e representam elementos que fazem parte da nossa sociedade consumista – como, por exemplo, o Estado, o mercado, o progresso e a civilização. Todos os atores interpretam dois personagens que possuem uma matriz comum, mas que ao mesmo tempo se opõem – chega a lembrar um pouco do que nós mesmos somos: ambíguos, porém únicos.

Mais do que “apenas” um espetáculo

“Ainda é uma construção dramatúrgica.” Palavras de Rogério Coelho, poeta e dramaturgo da peça, essa é a expressão que melhor poderia defini-la. A discussão sobre o mote do trabalho partiu da confluência de assuntos e interesses das companhias que formam o “Grupos em Trama”. E conciliar esses mesmos assuntos e interesses foi uma das partes mais complexas do processo criativo. “É como se tentássemos pegar um grande bojo e o passássemos em um funil para que o estado da arte refletisse todas as discussões, toda a trajetória dos grupos.” Ao lado de Jessé Duarte, Rogério ajudou a montar o texto para a encenação subsidiado em Felipe Raslan – doutor em Sociologia pela Unicamp e coordenador de estudo sociológico da peça – e inspirado por Richard SennettAlfredo Bosi, Karl Marx e em vários outros teóricos.

Com a orientação de direção de Cida Falabella (Cia. ZAP 18), o processo de diegese da peça durou cerca de um ano. O espetáculo também tem a ver com os grupos de teatro que compõem o projeto Grupos em Trama, já que todos estão localizados em regiões periféricas e convivem com a realidade dessas regiões. “Havia uma impossibilidade de o Cabeça de Porco ser apenas um espetáculo. Mas nós já tínhamos uma preocupação de fazê-lo como uma intervenção, muito mais do que uma apresentação fechada.” O dramaturgo Rogério, ainda sobre o conceito principal da peça, anuncia: “não consegui definir o que é cabeça de porco nem nesta nem das outras vezes que pensei sobre isso. Mas, partindo da coisa do ‘o que não vai para frente’, é um estado dialético: é o que não vai para frente, mas é o que vai, também: na miséria, na pobreza…”.

A bem da verdade, Cabeça de Porco não fala somente da realidade dos grupos envolvidos e das quebradas onde eles se inserem, mas da nossa própria condição. Nós é que, muitas vezes, ignoramos esses males para que não padeçamos do mal da ansiedade de ver algo estar errado e nada podermos fazer. Ou não querermos. Ou não sabermos.

*

O espetáculo volta a ser apresentado em dois locais: Venda Nova, nos dias 23, 24 e 25 de junho; e no bairro Industrial nos dias 27, 28 e 29 de junho, locais de atuação das companhias Cóccix e da Crônica, respectivamente. Os locais ainda serão confirmados.

Na gíria popular, costuma-se atribuir o termo “cabeça de porco” a um imóvel de péssima qualidade ou a uma situação/localidade que “não vai para frente”, situação sem saída, confusão. Esse termo surgiu no final do século 19 e era o nome do maior cortiço do Centro do Rio de Janeiro. Precursores das favelas, os cortiços eram a única opção de moradia dos mais pobres, especialmente de escravos recém-libertos, num Brasil que dava os primeiros passos rumo à industrialização. Eram locais insalubres e, acreditava-se, verdadeiros focos de doenças habitados por marginais e prostitutas, as chamadas “classes perigosas” da época. Expulsos dos cortiços, e sem ter para onde ir, os pobres subiram os morros da cidade para construir suas casas – nasciam, assim, as favelas brasileiras.

Limites: (sobre)viver nas fronteiras da cidade

(Sobre)viver nas fronteiras da cidade

por Luana Costa e Fernanda Godinho

Um dos maiores problemas enfrentados pelas grandes cidades brasileiras está relacionado ao crescimento desordenado das Regiões Metropolitanas. Para se ter uma idéia, em Belo Horizonte a maior parte das áreas habitadas da periferia ultrapassam a divisa municipal. Isso traz muitos problemas para quem vive entre o limite de duas cidades, já que morar em uma região como essa pode significar pertencer a dois ou mais lugares ao mesmo tempo ou simplesmente pode significar não pertencer a canto nenhum.

De acordo com o arquiteto urbanista Antônio Esteves, o processo de conurbação – fusão de várias cidades em uma única área metropolitana – é que faz com que as cidades cresçam para fora de seu perímetro urbano absorvendo aglomerados rurais e outros municípios. Assim, as cidades tendem a crescer, ampliando sua periferia no sentido horizontal e verticalizando as áreas centrais.

As falhas nas políticas de planejamento dos municípios são alguns dos fatores que ajudam a explicar os inúmeros problemas socioeconômicos, políticos, culturais e simbólicos que os habitantes dos limites são obrigados a enfrentar todos os dias. “Em algumas localidades o limite ignora residências, equipamentos públicos e comércios, o que causa inúmeros problemas de ordem socioeconômica”, explica o arquiteto. Segundo Antônio, entre 1950 e 1990, formaram-se no Brasil 13 cidades com mais de um milhão de habitantes e, em todas elas, a expansão do território metropolitano não resultou de determinações ou projetos articulados.

Divisa BH-Ibirité, no Barreiro. Foto: Daniel Protzner

Problemas de infra-estrutura

Apenas algumas ruas separam a casa da pedagoga Elen Cristina do Carmo de 24 anos da cidade de Belo Horizonte. Há 12 anos ela mora na Rua Alzira Caldeira de Paula, no bairro Pedra Branca em Vespasiano, Região Metropolitana de Belo Horizonte que faz limite com a capital. No entanto, a diferença de infra-estrutura entre os dois municípios pode ser facilmente identificada conforme afirma a moradora. “Eu costumo brincar que quando você chega ao bairro Pedra Branca você percebe pelo asfalto, porque enquanto você está no bairro Mantiqueira, que pertence ao município de Belo Horizonte, o asfalto é bem melhor, sem buracos. A coleta do lixo também é diferente, do lado de Belo Horizonte a coleta é mais constante”.

Outra moradora que sente na pele os desafios de viver em uma região de limites é a doméstica Aurora Aparecida de 44 anos, moradora da cidade de Santa Luzia, no limite com Belo Horizonte. Impossibilitada de ser atendida no posto de saúde que fica a dois quarteirões de sua casa por pertencer ao município vizinho ao seu, Aurora precisou burlar a lei. “Um dia meu marido necessitou de socorro com urgência e se eu fosse levá-lo ao posto de saúde de Santa Luzia, eu teria que pegar dois ônibus pra chegar lá o que iria demorar muito, além de ficar mais caro. Acabei pegando o comprovante de residência de uma vizinha que mora em Belo Horizonte pra poder conseguir o atendimento”. Ainda de acordo com a doméstica, há uma diferença muito grande nos serviços públicos oferecidos por Belo Horizonte em relação aos oferecidos por Santa Luzia. “Todos os serviços oferecidos por Belo Horizonte são melhores. Não entendo porque isso acontece, já que nós também pagamos os nossos impostos”, afirma a moradora.

Não é por acaso que 45% dos moradores dos municípios que fazem limites com Belo Horizonte na região norte, gostariam de morar na capital e 15% usam comprovante de endereço emprestado para conseguir benefícios. Os dados fazem parte de uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Limites que estudou os problemas sociais e urbanos de moradores que residem em 7 cidades que fazem divisa com a capital: Santa Luzia, Contagem, Ribeirão das Neves, Sabará, Ibirité, Nova Lima e Vespasiano.

Além dos problemas de infra-estrutura básicos como precariedade no atendimento de saúde, falta de escolas, ausência de equipamentos culturais como praças, quadras de esportes ou centros culturais, esses moradores não sabem ao certo a qual município pertencem. A casa de Elen Cristina do Carmo, por exemplo, possui o CEP de dois municípios. “Não é nem Belo Horizonte, nem Ribeirão das Neves. A gente tem alguns documentos com o endereço de Neves, mas a nossa conta de telefone, por exemplo, vem com endereço de Belo Horizonte. É uma coisa muito estranha porque eu tenho o CEP de dois municípios, mas nenhum deles assume o bairro.”

Divisa BH-Contagem – Foto: Daniel Protzner

Delimitação

Mas afinal, quem define a delimitação dos municípios? O processo de delimitação se dá através de Lei Federal, quando interestadual; Lei Estadual quando intermunicipal; e Lei municipal quando se trata de criação de distritos ou alteração de suas linhas divisórias. De acordo com Cláudia Lucia Leal Werneck, diretora geral do Instituto de Geociências Aplicadas (IGA), todo processo de delimitação deve passar pelo órgão, no entanto, as alterações só acontecem efetivamente com a participação dos municípios envolvidos. “A comunidade precisa motivar os vereadores a colocar esse assunto em pauta para que seja discutido na Câmara, já que é lá que as alterações serão efetivadas. Muitas vezes o que o IGA faz é atender demandas isoladas e responde apenas informando as pessoas sobre a situação. Nós não podemos conduzir o processo porque o mesmo faz parte da cidadania dos municípios envolvidos”, esclarece.

Esquina mais ao norte de BH – divisa com Santa Luzia – Foto: Daniel Protzner

Taxistas separados pela burocracia

De um lado da calçada, Belo Horizonte e, do outro, Sabará. A Avenida Contagem, situada no limite entre os dois municípios, é um dos exemplos em que uma única rua constitui-se como limite. É ali que taxistas disputam clientes em um mesmo quarteirão. Com o ponto de taxi criado há aproximadamente quatros anos, os taxistas de Sabará têm encontrado dificuldades para atender os moradores daquela região: os motoristas não podem pegar passageiros e iniciar uma corrida no lado da rua pertencente a Belo Horizonte e vice-versa.

Segundo Jair Clemente, presidente da Associação dos Taxistas de Sabará, é responsabilidade do município e não dos taxistas gerenciar o transporte remunerado, mas ele acredita que o município de Sabará ainda não tem condições de fazer essa fiscalização: “Sabará tem órgão fiscalizador, mas este órgão não atende a demanda do município. Belo Horizonte tem BHTrans, Polícia Militar, Guarda Municipal, etc. E Sabará, tem o quê?”, argumenta.

Em Ribeirão das Neves, um dos municípios da região metropolitana, nem mesmo existe um setor para tratar especificamente das questões de políticas urbanas. Como conseqüência do problema, tem-se ainda um conflito entre as administrações das cidades em questão, principalmente por causa do recurso gasto com a população não residente nele ou por causa da verba não recebida adequadamente. Muitas vezes, os recursos de um município acabam sendo gastos com cidadãos de outras cidades, mesmo não recebendo repasse estadual ou federal para tanto. O que não devia acontecer, já que Minas Gerais, de acordo com informações do IBGE, é um dos estados que têm maior controle sobre a sua divisão administrativa.

Em consulta feita a Secretaria de Estado e Desenvolvimento Regional de Política Urbana do Estado de Minas Gerais, a única parceria feita entre os municípios para resolver os problemas do Limites foi realizada entre as prefeituras de Belo Horizonte e Contagem com o Programa Novos Consórcios Públicos para governança metropolitana. No entanto, as outras regiões ainda não foram sequer impulsionadas a resolver o problema dos limites e seus habitantes continuam convivendo com a precariedade do acesso a bens e serviços fundamentais.

Divisa BH-Sabará – Foto: Daniel Protzner

Instituto Limites

Em Belo Horizonte, existe uma entidade de caráter multidisciplinar e sem fins lucrativos que pretende dar visibilidade para os problemas político-administrativos característicos de regiões metropolitanas, o Instituto Limites. Financiado pelo Fundo Municipal de Cultura e pela Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, o Instituto deu prosseguimento aos Projeto Experimental “Os Limites de Belo Horizonte e os Limites da Luz”, iniciado em 2003 na Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas.

De acordo com o fundador do Instituto, Bruno Moreno, o projeto tem como foco as regiões que se encontram sobre a linha geográfica que delimita Belo Horizonte e outros municípios da Região Metropolitana. O projeto realizou uma ampla pesquisa, qualitativa e quantitativa, explorando a fronteira da capital mineira com outras sete cidades – Nova Lima, Sabará, Contagem, Vespasiano, Santa Luzia, Ribeirão das Neves e Ibirité – com o objetivo de levantar informações sobre os principais problemas que comprometem o bem-estar das populações fronteiriças.

Iluminação, transporte, rede de esgoto, coleta de lixo, saúde, educação e segurança, foram alguns dos serviços públicos avaliados pela pesquisa. De acordo com Bruno Moreno, em todas as regiões foram apontados pelos moradores falhas nesses serviços. “A oferta desses serviços públicos é falha em todas as regiões, no entanto, a intensidade da deficiência na oferta desses serviços varia de acordo com a região. É interessante ressaltar que o atendimento médico foi o serviço pior avaliado em ambos os lados da linha do limite”.

Para Letícia Godinho de Souza, cientista política e coordenadora de pesquisa do Instituto Limites, “Não é a linha geográfica que os divide, mas a disparidade da oferta dos serviços públicos prestados à esses moradores.”

O resultado da pesquisa realizada pelo Instituto Limites está publicado no livro “Os limites de Belo Horizonte e os limites da Luz” lançado em 2008.

Para saber mais: Blog do Instituto Limites

Texto publicado também no site Ah! Cidade.

Confusão no Aglomerado da Serra: um relato de quem está lá dentro

Estamos retornando aos poucos das (merecidas) férias. Vamos voltar a exibir programas inéditos a partir de março. Mas tivemos que antecipar a nossa volta por causa do que aconteceu neste fim de semana no Aglomerado Serra, região Sul de Belo Horizonte.

Segundo relatos, policiais militares e moradores da favela entraram em conflito na noite de sábado para domingo. Houve correria, gritos de “assassinos” e um tiroteio que durou um bom tempo. Balas de borracha, bombas de efeito moral, pedras. Dezenas de policiais militares em conflito com moradores de um dos maiores aglomerados de Belo Horizonte.

Tudo isso aconteceu na Praça do Cardoso. A morte de tio e sobrinho foi o estopim para a manifestação dos moradores que relatam que ambos teriam sido assassinados pelos policiais militares. Moradores das oito vilas que compõem o complexo estavam revoltados com as mortes de Jeferson Coelho da Silva, o Jefinho, e o tio dele, Renilson Veriano da Silva, de 39 anos. Eles foram baleados e mortos por militares durante um confronto na Vila Marçola.

A confusão aconteceu porque, estando o clima tenso na comunidade, os moradores começaram a chamar os policiais de “assassinos”. Um dos policiais (que, segundo fontes, não estavam – nenhum deles – usando tarjetas de identificação) disse que o clima estava tranquilo por enquanto pelo fato de a imprensa estar lá. A fonte nos disse que o policial exclamou: “assim que a imprensa sair, o pau vai piar”. Nesses termos.

Há uma versão – esquisita, diga-se de passagem – do tenente que comandou a ação: de que todos os bandidos usavam fardas da PM, exceto os dois que foram mortos, que as trariam debaixo do braço. Os moradores insistem: os executados não tinham nada a ver com o crime.

Abaixo, seguem algumas fotos do confronto. O clima continua pesado e, ao que parece, hoje o dia será marcado por manifestações não só na favela mas na região Central também.

Se você viu o que aconteceu e quer colaborar, comente aqui no blog ou mande e-mail para conexaoperiferica@gmail.com. Precisamos que você que viu nos fale o que aconteceu.

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