– Em sintonia com os limites da cidade –

Amanda Gurgel, a mando da Educação

A educação no Brasil ainda tem que andar muito para chegar a algum patamar de qualidade. O mesmo vigor de uma administração que louva superávits também deveria injetar mais investimentos nos nossos mestres. Dados da Unesco contidos no Relatório de Monitoramento de Educação para Todos de 2010, a qualidade da educação no Brasil é baixa, principalmente no ensino básico. O relatório aponta que, apesar da melhora apresentada entre 1999 e 2007, o índice de repetência no ensino fundamental brasileiro (18,7%) é o mais elevado na América Latina e fica expressivamente acima da média mundial (2,9%).

O alto índice de abandono nos primeiros anos de educação também alimenta a fragilidade do sistema educacional do Brasil. Cerca de 13,8% dos brasileiros largam os estudos já no primeiro ano no ensino básico. Neste quesito, o País só fica à frente da Nicarágua (26,2%) na América Latina e, mais uma vez, bem acima da média mundial (2,2%). Na avaliação da Unesco, o Brasil poderia se encontrar em uma situação melhor se não fosse a baixa qualidade do seu ensino. Das quatro metas quantificáveis usadas pela organização, o País registra altos índices em três (atendimento universal, igualdade de gênero e analfabetismo), mas um indicador muito baixo no porcentual de crianças que ultrapassa o 5º ano.

Nesse contexto de caos e de mal estar na sala de aula (relatados até em dissertação de mestrado, como você pode ver aqui), surgem pessoas que desejam reverter esse quadro, lutando por melhorias aos alunos e aos professores.

Ela não tem mais do que 1,55m de altura. Tem o forte sotaque de uma nordestina arretada. E, assim como o sotaque, a sua luta por melhores condições na educação do seu estado, Rio Grande do Norte, tem marcado presença.

Amanda Gurgel é professora da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte e da rede municipal de Natal, capital do estado. Famosa recentemente por causa de um vídeo no qual ela aponta os reais problemas da educação, começou a rodar pelo país para incentivar mais pessoas a aderirem à luta, a não esmorecerem. O que ela diz no vídeo não é nada mais que mais-do-mesmo no que se refere à educação brasileira; mas o que marca não é o quê ela fala, mas como fala.

A professora esteve essa semana, mais exatamente em 31 de maio, para um evento da Assembleia Nacional dos Estudantes Livre – ANEL, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, no campus Pampulha. Antes de ela tomar seu lugar no Auditório Professor Bicalho, ela conversou sobre a sua campanha, sobre educação e planos futuros.

 

Qual foi seu sentimento diante de um plenário ao falar mal do sistema de educação, no seu caso, do Rio Grande do Norte?

Não senti nada de muito extraordinário porque essa atividade de denunciar os problemas da educação e falar em defesa dos trabalhadores e dos alunos sempre foi uma atividade minha desde que eu entrei na categoria. Desde que eu me tornei professora que eu realizo essas atividades – aquela era apenas mais uma, só que ganhou essa repercussão inesperada.

 

Você considera a repercussão positiva?

A repercussão foi positiva demais – obviamente por causa dessa conjuntura de total crise da educação, do momento em que chegamos realmente ao “fundo do poço”, como se costuma dizer. Não temos mais o que piorar na educação do Brasil. Aliado a esse momento, chega essa articulação nacional e isso é extremamente positivo.

 

Profª. Amanda Gurgel. Foto reproduzida do vídeo no qual ela ficou famosa. Clique para ver o vídeo.

 

Os problemas da educação nacional passam pela falta de valorização dos professores?

Assim como a desvalorização do professor, os problemas da educação nacional passam todos, necessariamente, pela falta de investimentos nessa pasta. Isso é fruto do descaso e dos compromissos que todos os governos têm não com os serviços essenciais prestados à população, mas com empresários, banqueiros, enfim, àqueles que financiam as suas campanhas. E é por causa da falta de recursos que nós temos todos esses problemas que estão caracterizados naquela fala e nos comentários e reações das pessoas em relação àqueles elementos que eu pontuei.

 

Você acredita que, por causa de toda essa discussão, o foco talvez esteja desviado para você em vez da discussão sobre educação?

Isso seria possível, sim. As pessoas têm dado um caráter um pouco personalista a isso. Mas isso não vai acontecer porque felizmente eu não estou nem um pouco vaidosa nem me considero a redentora nem da educação e nem do Brasil, nem me considero a salvadora de nada. Ao contrário: eu tenho dito, por onde eu passo, que não existe para os trabalhadores nenhum herói que não sejam os próprios trabalhadores organizados e engajados na luta. E a minha tarefa, nesse momento, é apenas essa: fazer com que as pessoas sintam-se animadas a se engajarem nesse movimento que é de nível nacional.

 

Você, naquele discurso, fala de professores que cumprem até três jornadas diferentes para complementar a renda. De que forma isso atrapalha a educação?

Isso não é um privilégio do Rio Grande do Norte, nem de uma minoria. Essa é a necessidade dos trabalhadores em educação do Brasil inteiro. Isso eu tenho constatado na prática, durante as viagens que estou fazendo – é assim que funciona em todos os estados, de norte a sul do Brasil. Como é que um professor que está em três horários em sala de aula, que muitas vezes recorre a outras atividades para complementar a sua renda… como é que ele pode estudar, se capacitar, elaborar as suas aulas de forma a atender a heterogeneidade de todas as turmas que ele leciona? Isso é impossível! Não se pode falar em qualidade na educação quando nós temos professores trabalhando nessa jornada de trabalho extenuante.

 

Aqui em Minas Gerais, o salário está abaixo do piso nacional. O Governo afirma que ele iguala esse piso com benefícios que não são, na verdade, o salário. Como você vê isso? Em todo estado é assim: salários abaixo do piso, professores subvalorizados…?

No RN nós também passamos por essa mesma realidade e em todos os lugares por onde eu tenho passado nenhum professor está recebendo esse piso. Na verdade, nem é o piso que contempla todas as necessidades, muito embora entendamos que esse é um primeiro passo, já que há regiões, como é o caso de Piauí, onde os professores recebem salário de R$ 500. De fato, é um primeiro passo que podemos dar. Não é a solução, mas é um passo rumo ao salário calculado pelo DIEESE, de R$ 2.200,00 para uma jornada de 20 horas semanais. A realidade é a mesma em todos os lugares.

 

Quais são os seus próximos passos no que se refere à luta em torno da educação?

Estamos realizando hoje [dia 31 de maio] um grande twitaço enviando as nossas mensagens com a hashtag “dez por cento do PIB já” para chegarmos mais uma vez ao topo dessa rede social para que as pessoas sintam o impacto da nossa mobilização, nesse momento, pela internet. Mas a nossa intenção é aliar esse movimento da internet ao movimento clássico das ruas. Estamos tentando elaborar um calendário de paralisação nacional e de atividades em nível nacional levantando essa bandeira do 10% do PIB.

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