– Em sintonia com os limites da cidade –

Arquivo para junho, 2011

Lançado em Belo Horizonte o movimento “Fora Lacerda”

Começa a ser articulado, via Facebook, um movimento que pede o impeachment do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), homem de confiança de Aécio Neves também apoiado por setores do PT. A primeira reunião ocorrerá neste sábado, 02 de julho, às 11h, na Praça da Estação. Márcio Lacerda, apesar de ter ampla maioria na Câmara de Vereadores, vem enfrentando crescentes críticas pela truculência da Guarda Municipal, medidas higienistas como o confisco das posses dos moradores de rua, a proibição de manifestações públicas, o despejo de moradores, o projeto de demolição de um dos marcos da cidade (o Mercado Distrital do Cruzeiro), a venda de ruas para a especulação imobiliária e, mais recentemente, a entrega da presidência do Comitê Executivo Municipal da Copa do Mundo a seu filho, Tiago Lacerda. A página do protesto no Facebook continua recebendo adesões.

O movimento pelo impeachment de Márcio Lacerda pretende, com essa primeira reunião, começar a acumular forças para um grande ato que realizaria em 31 de outubro. O protesto foi puxado por Tomás Amaral, morador do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, e um dos integrantes da Filmes de Quintal, associação sem fins lucrativos que promove a difusão da cultura audiovisual alternativa, e é autor de um relato sobre o assassinato de um morador por polícias militares em fevereiro. Mais de 4 mil pessoas já aderiram ao protesto no Facebook.

Já consolidado na internet está o movimento Salve a Rua Musas, que protesta contra a venda de 1.700 metros quadrados de espaço público que separam dois terrenos pertencentes à Tenco CBL-Serviços Imobiliários S.A. A venda possibilitaria a construção de um hotel de luxo na área e transformaria o restante da rua num beco fechado pelo prédio. A rua se localiza nas imediações de um maiores gargalos de tráfego da região metropolitana de Belo Horizonte, nas imediações do BH Shopping. Os moradores se mobilizaram e criaram um blog, que já sofreu um processo judicial da Tenco, que solicitava a remoção da página. A 5ª Vara Cível de Belo Horizonte só concedeu à construtora uma liminar que determinava a remoção de alusões a ela na página, medida já acatada pelos responsáveis pelo blog. O movimento “Salve a Rua Musas” também tem perfil no Twitter.

A relatora especial da ONU para a Moradia Adequada, Raquel Rolnik, incluiu a capital mineira entre as cidades que estão realizando despejos forçados que estariam violando os direitos humanos. Em resposta, o presidente do Comitê Executivo Municipal da Copa do Mundo e filho do prefeito, Tiago Lacerda, afirmou: “O que ela falou para a gente, não vamos nem considerar”.

O local dos protestos deste sábado, a Praça da Estação, já foi alvo de outras manifestações contra o prefeito, batizadas de “Praia da Estação”. Desde 2010, vestidos de roupas de banho e munidos de esteiras, cangas e outros apetrechos praianos, cerca de 200 estudantes ocuparam a Praça durante os finais de semana, em protesto contra o decreto municipal nº13.798 de dezembro de 2009, que proíbe a realização de eventos de qualquer natureza no local. O movimento é oficialmente ignorado pelo prefeito, mas nos bastidores preocupa Lacerda e seus aliados, que veem crescer na internet as páginas de protestos e críticas contra sua administração. Movimento semelhante para tirar do cargo a prefeita de Natal, Micarla de Souza (PV), começou timidamente nas redes sociais e rapidamente ganhou milhares de adeptos.

Profissionais da imprensa mineira tentaram noticiar a realização do ato Fora Lacerda deste sábado, mas foram silenciados pelo prefeito, no que já é uma característica conhecida das relações entre o Poder Executivo mineiro e a mídia, e que Márcio Lacerda agora transplanta também à prefeitura.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9360


Das várias cabeças de porco

Fotos: Lucas de Souza

Quem suporia que um símbolo de mau agouro, em cena, tivesse uma dimensão  humana?

Cabeça de Porco é um espetáculo experimental que traz no roteiro uma discussão sobre o progresso e suas consequências na sociedade atual.” Genérico e muito vago seria se fôssemos conceituar a peça apenas com esses dizeres. Sua concepção linguística e estética transcendem quaisquer explicações que se reduzam a palavras escritas e decifráveis.

No último fim de semana, o espaço do Grupo Trama de Teatro – localizado no bairro Fonte Grande, em Contagem, região metropolitana de Beagá – recebeu um espetáculo com esse nome. Fruto de um processo criativo dentro do coletivo “Grupos em Trama” – composto pelas cias.CóccixCrônica e Trama –, Cabeça de Porco reflete as dificuldades e mazelas que são frutos de processos deglutitórios e vorazes que vivenciamos no século 21.

O espetáculo se inicia com os atores convidando o público a tomar o seu “lugar” – um círculo de giz branco desenhado no chão preto. A primeira discussão vem à tona: qual é o lugar do público em um espetáculo teatral? Em cena, apenas um praticável – na verdade, uma pequena escada cujo desenho tortuoso perpetua-se até o céu, um pano preto esticado no teto. Uma analogia, talvez, à mesopotâmica Torre de Babel ou ao crescimento vertical desordenado e desorientado das grandes cidades.

Há também um baú e lixo. Muito lixo. Sacos plásticos são espalhados por todo o cenário, criando a porca atmosfera de um lugar supostamente sujo, moribundo e mal frequentado. Filhos paridos como se fossem excrementos. A estética alimenta a ideia e não o contrário: todos os elementos vão se transformando ao longo das cenas, o que torna o espetáculo sempre mais curioso. Em uma atmosfera densa e negra cujo “cenário sem cenário” lembra o pesado Dogville (do controverso Lars von Trier), trata-se de uma peça que trabalha com tabus, tentando torná-los totens. Religião, economia, sociedade: eis alguns temas tratados sob uma óptica herética, desregrada e, por que não?, irônica.

Ao longo da peça, o público se vê “contra a parede”. É necessário que ele se posicione e participe ativamente para que a cena tenha força, sentido. Apatia não pode ser o leitmotiv de quem se propõe a ver Cabeça de Porco. Até porque não dá para ficar inerte a tanta coisa imposta aos nossos olhos. Irritam-nos, e muito, algumas situações propostas – e é esse o cerne da questão: tirar-nos da zona de conforto de um espetáculo bem-feitinho e risível. Assistimos à peça, saímos um “bagaço humano”, encaramos aquilo que nos é colocado – seja em termos econômicos, sociais e mesmo morais. Com um quê de Absurdo, metáforas e elementos chocantes, o espetáculo reproduz a realidade de uma sociedade caótica, perdida, fundamentada na falsa ideia ascendente do consumo – uma verdadeira cabeça de porco.

Interessante observar a construção dos personagens que compõem a peça. Praticamente uma alegoria à reles condição humana, lembram um pouco algumas figuras caricatas da Idade Média (reproduzidas com humor pelo “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli). São emblemáticos, dúbios e representam elementos que fazem parte da nossa sociedade consumista – como, por exemplo, o Estado, o mercado, o progresso e a civilização. Todos os atores interpretam dois personagens que possuem uma matriz comum, mas que ao mesmo tempo se opõem – chega a lembrar um pouco do que nós mesmos somos: ambíguos, porém únicos.

Mais do que “apenas” um espetáculo

“Ainda é uma construção dramatúrgica.” Palavras de Rogério Coelho, poeta e dramaturgo da peça, essa é a expressão que melhor poderia defini-la. A discussão sobre o mote do trabalho partiu da confluência de assuntos e interesses das companhias que formam o “Grupos em Trama”. E conciliar esses mesmos assuntos e interesses foi uma das partes mais complexas do processo criativo. “É como se tentássemos pegar um grande bojo e o passássemos em um funil para que o estado da arte refletisse todas as discussões, toda a trajetória dos grupos.” Ao lado de Jessé Duarte, Rogério ajudou a montar o texto para a encenação subsidiado em Felipe Raslan – doutor em Sociologia pela Unicamp e coordenador de estudo sociológico da peça – e inspirado por Richard SennettAlfredo Bosi, Karl Marx e em vários outros teóricos.

Com a orientação de direção de Cida Falabella (Cia. ZAP 18), o processo de diegese da peça durou cerca de um ano. O espetáculo também tem a ver com os grupos de teatro que compõem o projeto Grupos em Trama, já que todos estão localizados em regiões periféricas e convivem com a realidade dessas regiões. “Havia uma impossibilidade de o Cabeça de Porco ser apenas um espetáculo. Mas nós já tínhamos uma preocupação de fazê-lo como uma intervenção, muito mais do que uma apresentação fechada.” O dramaturgo Rogério, ainda sobre o conceito principal da peça, anuncia: “não consegui definir o que é cabeça de porco nem nesta nem das outras vezes que pensei sobre isso. Mas, partindo da coisa do ‘o que não vai para frente’, é um estado dialético: é o que não vai para frente, mas é o que vai, também: na miséria, na pobreza…”.

A bem da verdade, Cabeça de Porco não fala somente da realidade dos grupos envolvidos e das quebradas onde eles se inserem, mas da nossa própria condição. Nós é que, muitas vezes, ignoramos esses males para que não padeçamos do mal da ansiedade de ver algo estar errado e nada podermos fazer. Ou não querermos. Ou não sabermos.

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O espetáculo volta a ser apresentado em dois locais: Venda Nova, nos dias 23, 24 e 25 de junho; e no bairro Industrial nos dias 27, 28 e 29 de junho, locais de atuação das companhias Cóccix e da Crônica, respectivamente. Os locais ainda serão confirmados.

Na gíria popular, costuma-se atribuir o termo “cabeça de porco” a um imóvel de péssima qualidade ou a uma situação/localidade que “não vai para frente”, situação sem saída, confusão. Esse termo surgiu no final do século 19 e era o nome do maior cortiço do Centro do Rio de Janeiro. Precursores das favelas, os cortiços eram a única opção de moradia dos mais pobres, especialmente de escravos recém-libertos, num Brasil que dava os primeiros passos rumo à industrialização. Eram locais insalubres e, acreditava-se, verdadeiros focos de doenças habitados por marginais e prostitutas, as chamadas “classes perigosas” da época. Expulsos dos cortiços, e sem ter para onde ir, os pobres subiram os morros da cidade para construir suas casas – nasciam, assim, as favelas brasileiras.

Amanda Gurgel, a mando da Educação

A educação no Brasil ainda tem que andar muito para chegar a algum patamar de qualidade. O mesmo vigor de uma administração que louva superávits também deveria injetar mais investimentos nos nossos mestres. Dados da Unesco contidos no Relatório de Monitoramento de Educação para Todos de 2010, a qualidade da educação no Brasil é baixa, principalmente no ensino básico. O relatório aponta que, apesar da melhora apresentada entre 1999 e 2007, o índice de repetência no ensino fundamental brasileiro (18,7%) é o mais elevado na América Latina e fica expressivamente acima da média mundial (2,9%).

O alto índice de abandono nos primeiros anos de educação também alimenta a fragilidade do sistema educacional do Brasil. Cerca de 13,8% dos brasileiros largam os estudos já no primeiro ano no ensino básico. Neste quesito, o País só fica à frente da Nicarágua (26,2%) na América Latina e, mais uma vez, bem acima da média mundial (2,2%). Na avaliação da Unesco, o Brasil poderia se encontrar em uma situação melhor se não fosse a baixa qualidade do seu ensino. Das quatro metas quantificáveis usadas pela organização, o País registra altos índices em três (atendimento universal, igualdade de gênero e analfabetismo), mas um indicador muito baixo no porcentual de crianças que ultrapassa o 5º ano.

Nesse contexto de caos e de mal estar na sala de aula (relatados até em dissertação de mestrado, como você pode ver aqui), surgem pessoas que desejam reverter esse quadro, lutando por melhorias aos alunos e aos professores.

Ela não tem mais do que 1,55m de altura. Tem o forte sotaque de uma nordestina arretada. E, assim como o sotaque, a sua luta por melhores condições na educação do seu estado, Rio Grande do Norte, tem marcado presença.

Amanda Gurgel é professora da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte e da rede municipal de Natal, capital do estado. Famosa recentemente por causa de um vídeo no qual ela aponta os reais problemas da educação, começou a rodar pelo país para incentivar mais pessoas a aderirem à luta, a não esmorecerem. O que ela diz no vídeo não é nada mais que mais-do-mesmo no que se refere à educação brasileira; mas o que marca não é o quê ela fala, mas como fala.

A professora esteve essa semana, mais exatamente em 31 de maio, para um evento da Assembleia Nacional dos Estudantes Livre – ANEL, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, no campus Pampulha. Antes de ela tomar seu lugar no Auditório Professor Bicalho, ela conversou sobre a sua campanha, sobre educação e planos futuros.

 

Qual foi seu sentimento diante de um plenário ao falar mal do sistema de educação, no seu caso, do Rio Grande do Norte?

Não senti nada de muito extraordinário porque essa atividade de denunciar os problemas da educação e falar em defesa dos trabalhadores e dos alunos sempre foi uma atividade minha desde que eu entrei na categoria. Desde que eu me tornei professora que eu realizo essas atividades – aquela era apenas mais uma, só que ganhou essa repercussão inesperada.

 

Você considera a repercussão positiva?

A repercussão foi positiva demais – obviamente por causa dessa conjuntura de total crise da educação, do momento em que chegamos realmente ao “fundo do poço”, como se costuma dizer. Não temos mais o que piorar na educação do Brasil. Aliado a esse momento, chega essa articulação nacional e isso é extremamente positivo.

 

Profª. Amanda Gurgel. Foto reproduzida do vídeo no qual ela ficou famosa. Clique para ver o vídeo.

 

Os problemas da educação nacional passam pela falta de valorização dos professores?

Assim como a desvalorização do professor, os problemas da educação nacional passam todos, necessariamente, pela falta de investimentos nessa pasta. Isso é fruto do descaso e dos compromissos que todos os governos têm não com os serviços essenciais prestados à população, mas com empresários, banqueiros, enfim, àqueles que financiam as suas campanhas. E é por causa da falta de recursos que nós temos todos esses problemas que estão caracterizados naquela fala e nos comentários e reações das pessoas em relação àqueles elementos que eu pontuei.

 

Você acredita que, por causa de toda essa discussão, o foco talvez esteja desviado para você em vez da discussão sobre educação?

Isso seria possível, sim. As pessoas têm dado um caráter um pouco personalista a isso. Mas isso não vai acontecer porque felizmente eu não estou nem um pouco vaidosa nem me considero a redentora nem da educação e nem do Brasil, nem me considero a salvadora de nada. Ao contrário: eu tenho dito, por onde eu passo, que não existe para os trabalhadores nenhum herói que não sejam os próprios trabalhadores organizados e engajados na luta. E a minha tarefa, nesse momento, é apenas essa: fazer com que as pessoas sintam-se animadas a se engajarem nesse movimento que é de nível nacional.

 

Você, naquele discurso, fala de professores que cumprem até três jornadas diferentes para complementar a renda. De que forma isso atrapalha a educação?

Isso não é um privilégio do Rio Grande do Norte, nem de uma minoria. Essa é a necessidade dos trabalhadores em educação do Brasil inteiro. Isso eu tenho constatado na prática, durante as viagens que estou fazendo – é assim que funciona em todos os estados, de norte a sul do Brasil. Como é que um professor que está em três horários em sala de aula, que muitas vezes recorre a outras atividades para complementar a sua renda… como é que ele pode estudar, se capacitar, elaborar as suas aulas de forma a atender a heterogeneidade de todas as turmas que ele leciona? Isso é impossível! Não se pode falar em qualidade na educação quando nós temos professores trabalhando nessa jornada de trabalho extenuante.

 

Aqui em Minas Gerais, o salário está abaixo do piso nacional. O Governo afirma que ele iguala esse piso com benefícios que não são, na verdade, o salário. Como você vê isso? Em todo estado é assim: salários abaixo do piso, professores subvalorizados…?

No RN nós também passamos por essa mesma realidade e em todos os lugares por onde eu tenho passado nenhum professor está recebendo esse piso. Na verdade, nem é o piso que contempla todas as necessidades, muito embora entendamos que esse é um primeiro passo, já que há regiões, como é o caso de Piauí, onde os professores recebem salário de R$ 500. De fato, é um primeiro passo que podemos dar. Não é a solução, mas é um passo rumo ao salário calculado pelo DIEESE, de R$ 2.200,00 para uma jornada de 20 horas semanais. A realidade é a mesma em todos os lugares.

 

Quais são os seus próximos passos no que se refere à luta em torno da educação?

Estamos realizando hoje [dia 31 de maio] um grande twitaço enviando as nossas mensagens com a hashtag “dez por cento do PIB já” para chegarmos mais uma vez ao topo dessa rede social para que as pessoas sintam o impacto da nossa mobilização, nesse momento, pela internet. Mas a nossa intenção é aliar esse movimento da internet ao movimento clássico das ruas. Estamos tentando elaborar um calendário de paralisação nacional e de atividades em nível nacional levantando essa bandeira do 10% do PIB.