– Em sintonia com os limites da cidade –

Arquivo para fevereiro, 2011

Nota de repúdio do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos

Publicamos aqui, integralmente, a nota de repúdio que o IHG publicou pela internet. Vem mais por aí.

NOTA DE REPÚDIO À REPRESSÃO POLICIAL NO AGLOMERADO DA SERRA

O Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania / IHG vem a público manifestar o mais veemente repúdio à repressão policial que se abate sobre o Aglomerado da Serra. Manifestamos também nossa total solidariedade a todos os moradores desta comunidade, em especial aos familiares, amigos e companheiros de Renilson Veriano da Silva e Jefferson Coelho da Silva, vítimas de execução sumária perpetrada pela Polícia Militar de Minas Gerais.

A ocupação do Aglomerado da Serra pela PMMG e o assassinato de Renilson e Jefferson constituem a mais brutal e inaceitavel violação dos direitos humanos. Esta revela racismo estrutural, em pleno vigor nas esferas militar, policial, judiciária e carcerária, exatamente aquelas que compõem a mal chamada Segurança Pública. Não existe Segurança Pública no Brasil: ela é, exclusivamente, da propriedade e do Estado – dos ricos e dos governantes.

Fica patente que este terror de Estado se exerce de forma aguda sobre os pobres e os negros. A manifestação mais evidente desta situação é constituída pelo extermínio da população jovem e negra, pela política de encarceramento em massa e pela criminalização das lutas e movimentos populares. Trata-se de genocídio aberto – vamos chamar as coisas pelo próprio nome.

Tudo isto está na base do projeto de cidade imposto pelo prefeito Márcio Lacerda e pelo governador Anastásia, ou seja, a privatização e o aniquilamento do espaço público levados às máximas conseqüências. Fazem parte desse quadro a segregação das favelas e comunidades de periferia e a militarização da sociedade: ruas e praças públicas tornaram-se espaços privados, monitorados, cercados, quadriculados – no caso do Aglomerado da Serra, a PMMG transformou tudo em praça de guerra.

Reiteramos o nosso repúdio a esta situação de barbárie e fazemos nossas as exigências dos moradores do Aglomerado da Serra:

Pela nomeação, responsabilização e punição dos assassinos de Renilson e Jefferson e de todos aqueles que praticaram violência contra os moradores!

Pelo fim da ocupação da comunidade pela PMMG!

Pelo fim da repressão!

Abaixo a criminalização das lutas populares!

Todo o nosso apoio e solidariedade aos familiares de Renilson e Jefferson!

Viva o Aglomerado da Serra!

Belo Horizonte, 21 de fevereiro de 2011
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania / IHG


Novo relato sobre a confusão no Aglomerado Serra, em BH

Pessoal,

Este é o relato do Tomás Amaral, cineclubista da Filmes de Quintal e morador do Aglomerado Serra. Ele descreve o que ocorreu no último fim de semana naquela favela.

Pedimos a todos que leiam, distribuam e divulguem em suas listas, contatos, blogs etc. É importantíssimo!

Abraços,
Equipe do Conexão Periférica

 

Caros amigos, me desculpem por tomar vosso tempo, mas se for de vosso interesse peço que leiam para se informar:

A trágica morte de dois incentes no Aglomerado da Serra era a gota d’água que faltava para a comunidade expôr sua revolta contra as ações truculentas e inconstitucionais da Polícia Militar no algomerado.

Há tempos que um grupo de não mais que dez policiais vem exterminando moradores do aglomerado aos olhos de toda a comunidade. A ROTAM reúne policias que ostentam o status de assassinos dentro da corporação, seguindo o mesmos códigos na lei – e aqueles debaixo dela – que a instituição tinha na época da ditadura.

Hoje, porém, policiais civis e militares em Belo Horizonte estão deixando de ser coadjuvantes no crime para serem protagonistas. Não querem mais receber acertos, querem ser os donos das bocas. Provavelmente querem controlar todo o tráfico de suas juridições em um sistema unificado e hierarquizado dentro da própria polícia, e estão perto disso. O sociólogo e ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Luís Eduardo Soares, apresentou exatamente essa análise no conflito ocorrido no Complexo do Alemão no Rio. As milícias no Rio representam justamente essa nova ordem do tráfico em que parte da polícia está engajada para implementar.

Os policiais da ROTAM sobem as favelas de Belo Horizonte para receber propinas, extorquir os jovens que fazem parte da mão de obra do tráfico e matar. Eles andam, cada um com duas pistolas, uma com chassi e a outra com o chassi raspado. Matam com uma e platam a outra na vítima. Predem jovens envolvidos com tráfico, e quando não conseguem extorquí-los, não os encaminham para a delegacia, simplesmente os exterminam.

Mas dessa vez, a prepotência de policiais que tiram, há anos, proveito do tráfico na serra, caiu do cavalo: pois as vítimas não tinham qualquer envolvimento com o tráfico e a comunidade está expondo o fim de sua tolerância com esses elementos.

Os protestos continuam e hoje ou amanhã haverá uma assembléia da comunidade com a Comissão dos Direitos Humanos.

A mídia fica em cima do muro ou reproduz sem contestação a versão mentirosa dos fatos apresentada pela polícia militar: a de que os dois trabalhadores estavam com roupas do GATE, armas e munições e atiraram nos políciais. A Rede Globo, especialmente, apresentou a matéria mais distorcida sobre o fato, que chegou a chocar a comunidade inteira pela ausência de um pingo de veracidade.

Conclamo todos interessados no combate à corrupção dentro de nossas instituições a enviar um e-mail para o site da Polícia Militar MG, no canal “fale conosco”, solicitando apuração desses assassinatos no Aglomerado da Serra. O momento é oportuno pois a Polícia Federal acabou de investigar e condenar os abusos das operações policiais no Complexo do Alemão. E em ambos episódios, tanto no Rio quanto em Belo Horizonte, temos abusos de policiais que representam a mesma estratégia de controle do tráfico de drogas. Portanto os protestos relacionados a esse caso específico podem servir a uma conjuntura maior. Temos que freiar a truculência de policiais corruptos e mostrar que a sociedade civil exige constitucionalidade nas ações da polícia.

Abaixo o e-mail que enviei para a PMMG, abraços!

“Solicito, enquanto cidadão belorizontino, às instâncias máximas da Polícia Militar de Minas Gerais, apuração rigorosa e medidas cabíveis no caso dos políciais da ROTAM que mataram dois inocentes no Aglomerado da Serra, apresentando uma versão mentirosa, facilmente desmentida por inúmeras testemunhas, e plantando provas falsas como: armas, munição e roupas do GATE em dois trabalhadores inocentes.

A corporação não pode corroborar esse tipo de mentira para inocentar alguns poucos poiciais envolvidos com o tráfico de drogas, extorsão de dinheiro, abuso de autoridade e extermínio.

Me questiono se haverá vontade da Polícia Militar mineira para combater esse tipo de corrupção dentro da instituição. Acretido que os trabalhadores honestos de dentro da corporação têm a obrigação de dar essa resposta à população e querer limpar o nome da instituição.”

Tomás Amaral
Filmes de Quintal
www.filmesdequintal.com.br


Confusão no Aglomerado da Serra: um relato de quem está lá dentro

Estamos retornando aos poucos das (merecidas) férias. Vamos voltar a exibir programas inéditos a partir de março. Mas tivemos que antecipar a nossa volta por causa do que aconteceu neste fim de semana no Aglomerado Serra, região Sul de Belo Horizonte.

Segundo relatos, policiais militares e moradores da favela entraram em conflito na noite de sábado para domingo. Houve correria, gritos de “assassinos” e um tiroteio que durou um bom tempo. Balas de borracha, bombas de efeito moral, pedras. Dezenas de policiais militares em conflito com moradores de um dos maiores aglomerados de Belo Horizonte.

Tudo isso aconteceu na Praça do Cardoso. A morte de tio e sobrinho foi o estopim para a manifestação dos moradores que relatam que ambos teriam sido assassinados pelos policiais militares. Moradores das oito vilas que compõem o complexo estavam revoltados com as mortes de Jeferson Coelho da Silva, o Jefinho, e o tio dele, Renilson Veriano da Silva, de 39 anos. Eles foram baleados e mortos por militares durante um confronto na Vila Marçola.

A confusão aconteceu porque, estando o clima tenso na comunidade, os moradores começaram a chamar os policiais de “assassinos”. Um dos policiais (que, segundo fontes, não estavam – nenhum deles – usando tarjetas de identificação) disse que o clima estava tranquilo por enquanto pelo fato de a imprensa estar lá. A fonte nos disse que o policial exclamou: “assim que a imprensa sair, o pau vai piar”. Nesses termos.

Há uma versão – esquisita, diga-se de passagem – do tenente que comandou a ação: de que todos os bandidos usavam fardas da PM, exceto os dois que foram mortos, que as trariam debaixo do braço. Os moradores insistem: os executados não tinham nada a ver com o crime.

Abaixo, seguem algumas fotos do confronto. O clima continua pesado e, ao que parece, hoje o dia será marcado por manifestações não só na favela mas na região Central também.

Se você viu o que aconteceu e quer colaborar, comente aqui no blog ou mande e-mail para conexaoperiferica@gmail.com. Precisamos que você que viu nos fale o que aconteceu.

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Rede de Comunicação Periférica em fase de implementação

Fazer com que as periferias urbanas sejam também vozes ativas na sociedade, reverberando o seu ponto de vista. Este é, desde o começo, o principal objetivo do Conexão Periférica – este projeto que você confere aqui no blog. A partir do programa de rádio, exibido pela UFMG Educativa, estamos em via de expandir a nossa atuação, convocando os diversos “atores periféricos” para a colaboração horizontal.

Um desses projetos é a Rede de Comunicação Periférica. A equipe percebeu uma necessidade de inserir os atores sociais no processo de produção do programa. Percebemos que a grande mídia costuma “invisibilizar” as periferias, conferindo-lhes uma interpretação pré-formatada – que beira ao preconceito em alguns casos. O principal do nosso projeto

Com um ano de projeto, o Conexão tem ido além do rádio. Há o blog, com notícias e programas já exibidos; Twitter e Facebook; e participação em ciclos formativos, como seminários e eventos – o Seminário do Juventudes Urbanas, no ano passado, é um bom exemplo. A Rede vai:

– Promover o intercâmbio de movimentos sociais entre as periferias de Belo Horizonte por meio de eventos gravados

Encontro entre jovens do Gera Ação e Equipe do Conexão Periférica

em uma agenda aberta;

– Utilizar a Comunicação como expressão política para a promoção do autoconhecimento e da autoconsciência dos moradores das periferias (não se trata de um processo unidirecional, mas colaborativo e horizontal);

– Permitir a circulação de dados sobre as periferias – números de ocupações urbanas, quantidade de grupos artísticos por região etc.;

– Permitir à sociedade uma alternativa de interpretação das periferias urbanas.
E aí entra outro projeto, também voltado para as comunidades periféricas. O “Vila Wiki” (que se encontra em fase de concepção e formatação) vem com o objetivo é divulgar as necessidades de moradores de vilas e favelas das nove regiões (as chamadas Regionais) de Belo Horizonte. Tem-se a ideia de capacitar dois jovens por regional para que estes tenham um aprendizado colaborativo e horizontal de dispositivos móveis: vídeo, foto e áudio – sendo que tudo isso pode ser captado e capturado por meio de uma simples câmera de telefone celular.

Com a reunião de ambos os projetos, a Rede vai pescar mais peixes. Será implementada uma plataforma colaborativa de notícias e dados sobre as periferias urbanas de Belo Horizonte, de constante atualização e fácil acesso. Nos dois existe uma preocupação de se utilizar o digital, a interface, como artifício de amplificação para as vozes periféricas.

Escute um pouco e “veja” o que é o Conexão Periférica.

 

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