– Em sintonia com os limites da cidade –

Noite do Griot com Elisa Lucinda

Trazer à margem das sensações humanas, o sentimento guardado como tesouro nas profundezas da palavra, seja ela escrita, dita, vivida… Assim como os grandes mestres da tradição oral africana, a artista capixaba Elisa Lucinda iluminará com seus versos a próxima edição do projeto Noite do Griot, do Centro Cultural Casa África, no dia 27 de abril (terça-feira), a partir das 21 horas, no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte.

O olhar atento sobre os diversos tons e óticas do cotidiano, numa variada aquarela de relações, sejam afetivas ou de experiências comuns a qualquer cidadão. É desse princípio e visão que surge em Elisa a poeta, do trato zeloso com a palavra, consciente, cronista e crítica da sociedade. “A poesia é a lente pela qual faço a tradução da vida. O poeta é o tradutor desse cotidiano que todos vivem mais não escrevem. Só o poeta escreve sobre aquele fracasso, aquela traição, aquela situação”, defende Elisa.

Sobre onde buscou inspirações para os primeiros passos, a atriz e poeta destaca o que aprendeu ainda no seio familiar e perpetua como tradição: “De minha vó Maria herdei os meus neologismos, a facilidade em transformar em substantivo qualquer verbo, colocando o sufixo ‘ão’, como quando digo ‘Não fica nessa ‘fazessão’ de pipa a tarde inteira, menino’; de meu Pai, herdei o humor em tudo, até na tragédia, e da minha mãe a incrível capacidade de imitar muito bem os personagens do cotidiano”, revela.

Nesse encontro com a poesia falada – é assim que a artista trata sua criação -, com única apresentação que fará no Noite do Griot, a poeta mostra uma coletânea dos seus poemas mais expressivos, muitos deles já conhecidos do público. Em clima intimista e leve, ela conduzirá a platéia para a reflexão do que trata os seus textos, que trazem temáticas diversas e universais: o amor e as relações afetivas, o feminismo, as diversas personagens cotidianas que representamos, o racismo e injustiças sociais, como em um dos textos mais conhecidos na internet, intitulado “Só de Sacanagem”, feito sob encomenda para a cantora Ana Carolina dizer em show, que Elisa destaca que “virou um discurso ético para muitas pessoas”.

Entre um poema e outro, Elisa conversará com o público, revelando fatos e momentos de sua trajetória artística e pessoal.

Nesta 5ª edição do Noite do Griot, a equipe da Casa África inovou, iniciando com uma atração fora de Minas Gerais, ao levar o paulistano Rappin’ Hood para Porto Seguro. Em março, o compositor, cantor e agitador cultural baiano Carlinhos Brown deu início às atrações do projeto em Belo Horizonte, seguido do rapper Mano Brown, dos Racionais MC’s. Em maio, participa o mineiro Marku Ribas, sendo que em junho quem encerra o projeto são as Meninas de Sinhá.

Realizado através do Fundo Nacional de Cultura, com produção de Karú Torres e Cristina Gandra, o evento tem entrada franca, com ingressos limitados a um por pessoa, que serão distribuídos com 01 hora e meia de antecedência, na bilheteria do teatro. O cenário dessa edição foi concebido especialmente pelo artista plástico e cartunista Cau Gomes, belorizontino radicado há mais de uma década em Salvador.

Sobre Elisa Lucinda

Nascida em dois de fevereiro, Dia de Yemanjá, na capital Vitória do Espírito Santo, Elisa cresceu em seu estado natal e formou-se em jornalismo, chegando a exercer a profissão. Em 1986, ela muda-se para o Rio de Janeiro, disposta a seguir a carreira de atriz e, também, para trilhar um caminho na poesia, passando a viver dela.

Desde os primeiros recitais com livros artesanais, vendidos em espaços e casas culturais da noite carioca, a poeta evoluía como atriz, em peças de teatro, até que em 1989 estréia na televisão brasileira na novela Kananga do Japão, no papel da personagem Suely, na extinta TV Manchete. Depois disso, lançou em 1995 o livro O Semelhante, adaptado para espetáculo solo que conquistou platéias em teatros do Brasil e exterior por seis anos de circulação. Em 2003, a atriz recebe do diretor Manuel Carlos como presente a personagem Pérola, na novela global Mulheres Apaixonadas. Atualmente, Elisa circula com o espetáculo Parem de Falar Mal da Rotina, sucesso de crítica e público, apresentado no Fórum Internacional de Culturas de Barcelona, em 2004.

Na literatura infantil, Elisa estreou com o livro-poema A Menina Transparente, que recebeu Prêmio Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Depois, lança, em 2002, pela coleção Amigos Ocultos, os também infantis O Órfão Famoso; Lili, a Rainha das Escolhas e O Menino Inesperado. Já em 2006, publica A Fúria da Beleza, primeiro livro de adultos para colorir. Muitos de seus livros ganharam versão em CD, declamada pela autora e colegas convidados para emprestarem suas vozes e emoções aos textos dela, a exemplo de Miguel Falabella, Zezé Polessa, Paulo José, Alessandra Negrini, Marília Pêra, Marília Gabriela, Irene Ravache e Zeca Baleiro, nas obras O Semelhante e Euteamo e Suas Estréias. Na música, gravou em 2004 o disco Estação Trem e prepara para em breve o CD Ô Danada, a partir do show ao vivo realizado com o músico Marcos Lima, a ser lançado pelo selo do Centro Cultural Carioca (CCC).

Noite do Griot – 5 anos

Entre os vários projetos, o Noite do Griot surgiu em 2005, com especial carinho do CCCA, para valorizar as tradições da matriz africana de expressão oral, da poesia à música com heranças na afrobrasilidade, nos mais variados gêneros e geografias culturais. “Pela organização perfeita, pelo seleto público que acorre aos eventos e pela firmeza de propósitos que motiva os organizadores, o Noite do Griot é um grande destaque em meio ao grande número de projetos vazios, amadorísticos, que vêm, por puro oportunismo, ocupando a cena cultural afrobrasileira”, defende Nei Lopes, sambista e compositor carioca que participou do projeto em 2008.

O Noite do Griot é quase um teste para o artista, pois despindo-o de todo aparato tecnológico para um formato acústico e menos plugado possível, sem uma quantidade numerosa de músicos, quem sobe ao palco encontra-se, praticamente, na sua essência artística, reservada ao artista na maioria das vezes nos momentos de criação solitária. A cantora paulistana Fabiana Cozza, está entre aqueles que encantaram-se pelo projeto e acredita que “o Noite do Griot quebra a dita 4ª parede que tanto se fala no teatro com relação ao público, já que ele (o público) entra e participa no espetáculo. Não adianta muito o artista ter um roteiro a seguir, pois o público dita um pouco sobre o que vai ser apresentado. Além disso, o artista que está nesse palco sente-se ‘desnudado’ diante do espectador, pela condição intimista, da proximidade, pela fala mais coloquial e direta. Isso nos conduz a um lugar muito ancestral, muito africano, de transmissão da palavra e arte na essência”.

Na busca de apresentar a diversidade das heranças africanas no Brasil, o Noite do Griot prima por mostrar artistas dos mais variados estilos, do samba ao rap, passando pela música mais experimental atingindo até tradições mais reservadas aos quilombos e comunidades rurais, como é o caso do congado e candombe em Minas. “O projeto é muito bem pensado. Vejo e sinto que é necessário para divulgar no país nossas matrizes africanas. Senti-me muito feliz ao participar, revelar a oralidade que trago como espelho no meu trabalho artístico, de transmitir as coisas da minha infância, que foram passadas por meus pais, que por sua vez receberam dos meus avós. Como minha música tem essa matriz no meio rural, para mim foi importante ter essa interlocução na área urbana. São poucos projetos que tem essa abertura para entender essas matrizes africanas que estão no campo”, acredita o violeiro e cantor Pereira da Viola.

Sobre Griots

O trânsito secular de saberes por meio da Tradição Oral, através de pessoas que eram e são guardiãs de grande parte da história de nações inteiras, das quais versam sobre as glórias do passado de dinastias dos grandes impérios africanos, até a preservação de rituais e preceitos que coexistem nas sociedades atuais. Esses são os chamados griots, que mais que pessoas comuns são dotados de profundo conhecimento transmitido geração a geração, tendo ainda muitas habilidades artísticas, como a música, retórica e a poesia, muitas vezes transmitidas em locais públicos, seja em praças ou embaixo de frondosos baobás. Num passado de inexistência de livros, foram esses griots os responsáveis por perpetuar a história e costumes de suas sociedades, tanto que os jovens africanos que primeiro partiram para a Europa para estudar diziam que “a morte de um griot representa o mesmo que a queima de uma biblioteca”.

Serviço:

Noite do Griot 2010 – Elisa Lucinda

Data: 27 de abril (terça-feira), às 21 horas

Local: Teatro Alterosa (av. Assis Chateaubriand, 499, Floresta)

Entrada franca – retirada dos ingressos limitados a um por pessoa, 01 hora e meia antes do evento, na bilheteria de teatro.

Classificação: 18 anos

Informações: (31) 3237-6611

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